HPV: a vacina que previne câncer está de graça até dezembro — e mais de 600 mil jovens ainda não tomaram
O Ministério da Saúde prorrogou até 31 de dezembro a repescagem para quem tem de 15 a 19 anos. É uma dose só, é gratuita, e previne seis tipos de câncer. Ainda assim, sobra vacina e falta braço.
Se você tem entre 15 e 19 anos — ou tem um filho, sobrinho ou irmão nessa faixa — preste atenção, porque a janela está fechando. O Ministério da Saúde acabou de dar mais seis meses de prazo para uma vacina que, sem exagero nenhum, previne câncer. E que, mesmo assim, está sobrando nos postos.
A campanha de repescagem contra o HPV, que terminaria em junho, foi prorrogada até 31 de dezembro de 2026. O público-alvo são os adolescentes de 15 a 19 anos que, por um motivo ou outro, não tomaram a dose na idade de rotina (9 a 14 anos). E o buraco é grande: até agora, pouco mais de 287 mil jovens dessa faixa foram vacinados — restam mais de 600 mil ainda sem nenhuma dose.
O que o HPV faz — e por que a vacina é, na prática, uma vacina contra câncer
HPV é a sigla do papilomavírus humano, e ele é tão comum que a maioria das pessoas sexualmente ativas vai entrar em contato com algum tipo dele ao longo da vida. Na maioria dos casos, o corpo dá conta e o vírus vai embora sozinho. O problema são os tipos de alto risco, que se instalam e, ao longo de anos, transformam células saudáveis em tumores.
A lista de cânceres associados ao HPV não é curta: colo do útero, ânus, pênis, vulva, vagina e orofaringe (garganta). O de colo do útero é o mais conhecido — é o terceiro tumor mais frequente entre mulheres no Brasil e mata milhares por ano. E aqui está o ponto que costuma se perder na conversa: quase todos esses casos poderiam ser evitados com uma dose de vacina tomada na adolescência.
É por isso que a vacina do HPV é uma das raras intervenções médicas que se pode chamar, sem marketing, de vacina contra o câncer. Se um remédio fizesse isso, custaria uma fortuna e teria fila na farmácia. Este está de graça na esquina — e sobra.
Uma dose só. Sério.
Muita gente ainda tem na cabeça o esquema antigo, de duas ou três doses, e desiste antes de começar porque acha trabalhoso. Desde 2024, o Brasil adotou a dose única para o público geral, seguindo a recomendação da Organização Mundial da Saúde. Uma picada, uma vez, pronto. A proteção é robusta e duradoura.
A exceção fica para grupos específicos, que continuam precisando de três doses: pessoas vivendo com HIV, pacientes em tratamento de câncer, transplantados, usuários de PrEP (de 15 a 45 anos) e vítimas de violência sexual (a partir dos 15 anos). Para todo o resto — a esmagadora maioria dos adolescentes — é dose única e acabou.
• Repescagem prorrogada até 31 de dezembro de 2026
• Público: adolescentes de 15 a 19 anos não vacinados
• Idade de rotina: 9 a 14 anos (dose única)
• Já vacinados na repescagem: 287.647 (124.172 meninas e 163.502 meninos)
• Ainda faltam: mais de 600 mil adolescentes
• Previne câncer de colo do útero, ânus, pênis, vulva, vagina e garganta
• Grátis em qualquer posto de saúde, com Cartão SUS e documento
Meninos também — e a conta não fecha sem eles
Um detalhe que chama atenção nos números: entre os vacinados na repescagem, os meninos (163 mil) superaram as meninas (124 mil). Isso é bom, mas o senso comum ainda trata o HPV como "problema de mulher", coisa de colo do útero. Não é. O vírus não escolhe sexo, e os homens são tanto reservatório de transmissão quanto vítimas — o câncer de orofaringe ligado ao HPV, por exemplo, cresce justamente na população masculina.
Vacinar meninos protege eles próprios e quebra a cadeia de transmissão. É saúde pública básica: quanto mais gente imune, menos vírus circulando para todo mundo.
Por que sobra vacina
A pergunta incômoda é: se é de graça, é uma dose só e previne câncer, por que 600 mil jovens continuam sem tomar? A resposta mistura desinformação (aquela onda antiga e desmentida de que a vacina teria efeitos colaterais graves), a falsa sensação de que "isso não é comigo" típica da adolescência, e a simples falta de lembrete — ninguém marca na agenda uma vacina que não dói na hora e cujo benefício só aparece daqui a vinte anos.
O próprio Ministério admite que o monitoramento mostra avanço, mas que os dados ainda são insuficientes para alcançar esse público, e que serão necessárias estratégias mais intensas. Tradução: vão ter que ir atrás, porque o jovem não está indo até o posto.
A prorrogação até dezembro é uma segunda chance rara. Uma dose hoje é um câncer a menos daqui a duas décadas. Poucas decisões de seis minutos rendem tanto.
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