Mpox: Ministério compra 20 mil doses de vacina — e o Rio já passou 2025 inteiro
A compra, feita pelo fundo rotatório da Opas, é chamada de "preventiva e estratégica". O Brasil tem 665 casos em 2026, 94% menos que em 2022, mas o estado do Rio já soma mais que no ano passado inteiro e recebeu 2 mil doses extras nesta semana. A vacina continua restrita a quem tem HIV com imunidade muito baixa.
Lembra da mpox? Aquela doença que em 2022 ocupou manchete todo dia, ganhou fila de vacina e depois sumiu do noticiário como se tivesse ido embora junto com o verão? Pois ela não foi. Só ficou mais quieta, e quieta não é o mesmo que ausente.
Nesta quinta-feira (5), o Ministério da Saúde anunciou que autorizou a compra de até 20 mil doses da vacina contra a mpox, pelo Fundo Rotatório da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). A decisão foi alinhada em reunião na quarta-feira (4) e, segundo a pasta, tem "caráter preventivo e estratégico": recompor o estoque e garantir que o SUS consiga responder se o cenário mudar.
No mesmo dia da reunião, o ministério mandou mais 2 mil doses para o Rio de Janeiro. E é aí que a palavra "preventivo" começa a ganhar outro sotaque.
O número nacional caiu. O do Rio, não
No retrato do país, a notícia é boa. Em 2026, o Brasil confirmou 665 casos de mpox, 94% a menos que em 2022, quando passaram de 10 mil. Comparado ao pico, é quase um sussurro.
Só que média nacional é como temperatura média de um paciente com um pé no gelo e outro no forno: diz pouco sobre onde dói. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde do Rio, o estado confirmou 211 casos até 1º de novembro, contra 119 em todo o ano de 2025. Na capital, a prefeitura contou 167 confirmações neste ano, ante 94 no ano passado. O ministério, com dados mais recentes, já fala em 218 casos no estado.
Faça a conta: com quase dois meses ainda por vir, o Rio já tem perto de 80% a mais que no ano anterior inteiro e concentra praticamente um terço dos casos do país. Não houve mortes registradas. Com o novo envio, o estado recebeu 3,5 mil doses em 2026, e o ministério diz que pode mandar mais conforme o consumo.
• Casos confirmados em 2026: 665 (-94% em relação a 2022, que teve mais de 10 mil)
• Estado do Rio em 2026: 211 casos até 1º/11 (SES-RJ) — 218 pela conta do ministério — contra 119 em todo 2025
• Cidade do Rio: 167 casos em 2026, contra 94 em 2025
• Compra autorizada: até 20 mil doses, via Fundo Rotatório da Opas
• Doses enviadas ao Rio em 2026: 3,5 mil (2 mil só nesta semana)
• Esquema: 2 doses, com 28 dias de intervalo
(Fontes: Ministério da Saúde, Secretaria de Estado de Saúde do RJ, Prefeitura do Rio, Agência Brasil, Folha de S.Paulo)
Por que comprar pela Opas (e o que o ministério não contou)
O Fundo Rotatório da Opas é uma espécie de cooperativa de compras dos países das Américas: em vez de cada governo negociar sozinho com o fabricante, a organização junta os pedidos e compra em escala. Para uma vacina produzida por pouquíssimos laboratórios no mundo, como a de mpox, é o caminho mais curto para não ficar no fim da fila. Foi por esse canal que o Brasil recebeu as primeiras doses, em 2023.
O que falta é transparência. A Folha perguntou ao ministério quanto vai custar a compra, quem é o fabricante, quando as doses chegam, como serão distribuídas e quanto existe hoje em estoque. Até a publicação, nenhuma dessas perguntas tinha resposta. "Até 20 mil doses" é um teto, não uma entrega, e estoque estratégico sem número é como reserva de emergência que ninguém sabe se cobre um mês ou um dia.
Quem pode tomar (e quem não pode)
Aqui vem a parte que costuma frustrar. A vacina contra a mpox no SUS não é para todo mundo, nem para quem quer se precaver por conta própria. A estratégia nacional prioriza pessoas vivendo com HIV/aids com CD4 abaixo de 100 células por mm³. O CD4 é o linfócito que coordena a defesa do corpo; quanto mais baixo, mais fácil a mpox virar quadro grave.
Se sobrar dose, entram as pessoas com HIV e CD4 abaixo de 200, os usuários de PrEP (a profilaxia pré-exposição ao HIV) e os profissionais de laboratório que manipulam amostras do vírus. Quem está no grupo prioritário deve procurar o centro de referência onde já faz acompanhamento, fazer o cadastro e esperar o agendamento.
Existe ainda a vacinação pós-exposição: quem teve contato próximo com um caso suspeito ou confirmado deve procurar um serviço de saúde para avaliação. O ideal é tomar a vacina nos primeiros quatro dias após o contato; ela pode ser aplicada até o 14º dia, mas aí a capacidade de evitar a infecção cai, e o objetivo passa a ser impedir a forma grave.
A lógica de restringir é compreensível quando a vacina é escassa: protege primeiro quem pode morrer. O problema é que essa escolha só faz sentido se o resto do sistema funcionar, ou seja, se a pessoa com lesão suspeita conseguir teste rápido, diagnóstico e orientação. Vacina racionada com vigilância capenga é cobertor curto com buraco no meio.
Como a mpox pega e como aparece
A mpox, que até 2022 era chamada de "varíola dos macacos", é causada por um vírus primo do da varíola. Nos animais silvestres, sobretudo roedores, ele circula naturalmente. Entre pessoas, passa principalmente pelo contato direto com lesões na pele ou mucosas, por secreções (pus, sangue das feridas, saliva) e por objetos contaminados, como toalhas, roupas e lençóis. Contato próximo e prolongado com secreções respiratórias também transmite.
Os primeiros sinais são genéricos: febre, dor de cabeça, dor no corpo, cansaço e ínguas (linfonodos inchados). Depois vêm as lesões, que começam como manchas, viram bolhas e formam crostas, no rosto, nas mãos e nos pés, na boca e na região genital e perianal. Os sintomas costumam durar de duas a quatro semanas, e a maioria dos casos é leve ou moderada.
Na prática, o contágio hoje acontece muito em contato íntimo e sexual. Dizer isso não é moralismo: é informação de saúde pública, e esconder isso por constrangimento é o tipo de pudor que espalha doença.
O que fazer (de verdade)
Se você tem HIV, pergunte no seu serviço de referência se está no grupo prioritário e se há dose disponível. Se usa PrEP, vale a mesma pergunta: as doses remanescentes existem justamente para você.
Se apareceu uma lesão estranha na pele ou nas mucosas, principalmente acompanhada de febre e ínguas, procure atendimento, evite contato íntimo até ser avaliado e não compartilhe toalha, roupa de cama e roupas. Se alguém próximo teve diagnóstico, não espere sintoma: o relógio da vacina pós-exposição começa a correr no dia do contato.
A mpox saiu do noticiário, mas o vírus nunca leu jornal. Vinte mil doses no estoque é uma boa notícia. Melhor ainda seria saber quando elas chegam.
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