3 milhões de idosos acamados dependem do SUS — e agora o sistema vai até a casa deles
O Ministério da Saúde lançou o Padi Brasil, primeira estratégia federal só para levar equipes multiprofissionais à casa de idosos com limitação funcional. São R$ 500 milhões, 2.733 municípios já pediram adesão — e a aposta de que cuidar em casa custa menos e adoece menos do que esperar a próxima internação.
Existe um paciente que o sistema de saúde costuma enxergar só de relance: o idoso acamado em casa. Ele não vai à UBS porque não consegue descer a escada. Não vai ao especialista porque atravessar a cidade numa ambulância é uma operação. Ele só aparece no radar do SUS quando piora de vez — uma escara que infeccionou, uma pneumonia, uma queda — e aí entra pela porta da emergência, é internado, melhora, recebe alta e volta para casa para recomeçar o ciclo semanas depois.
É para quebrar essa roda-viva que o Ministério da Saúde lançou o Padi Brasil — Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa. Anunciado pelo ministro Alexandre Padilha, é a primeira estratégia federal de cofinanciamento dedicada exclusivamente a botar equipes multiprofissionais dentro da casa do idoso, pela porta da Atenção Primária, antes de a coisa virar internação.
Por que cuidar em casa não é só simpático — é mais barato
O Brasil tem hoje mais de 3 milhões de idosos acamados atendidos pelo SUS. E a conta demográfica não para de crescer: a expectativa de vida chegou a 76,6 anos em 2024, e 80% das pessoas idosas dependem exclusivamente do SUS. Ou seja: não é um nicho. É uma fatia gigante e crescente da população que envelhece dependendo inteiramente da rede pública.
A lógica do programa é a que a medicina já sabe há décadas, mas a burocracia custa a aplicar: para o idoso frágil, o hospital costuma ser o pior lugar. Cada internação evitável é dinheiro queimado, leito ocupado e risco de infecção hospitalar, delírio e perda de autonomia. Levar o cuidado para casa — acompanhar a pressão, ajustar o remédio, tratar a ferida antes de ela infeccionar — sai mais barato e adoece menos. A pioneira disso no Brasil, aliás, foi a médica Guilhermina Gomes, que montou atendimento domiciliar na Ilha do Governador, no Rio, ainda nos anos 1990, justamente para frear a reinternação de idosos.
Quem entra na sua casa
O Padi não manda só uma enfermeira de vez em quando. A proposta são as equipes Multi (eMulti) — times que reúnem psicólogo, nutricionista, cardiologista, geriatra e outros especialistas, integrados às equipes de Saúde da Família. O programa funciona em três modalidades — Ampliada, Complementar e Estratégica — conforme o tamanho e a complexidade do que cada território precisa.
• R$ 500 milhões de investimento federal total
• R$ 163,2 milhões em 2026 e R$ 329,3 milhões em 2027
• Até R$ 57,5 mil por mês de custeio para cada equipe, conforme a modalidade
• 2.733 municípios já pediram adesão
• 3.677 equipes multiprofissionais solicitadas no país
• Alvo: parte dos 3 milhões de idosos acamados atendidos pelo SUS
Fonte: Ministério da Saúde, junho de 2026.
A adesão dos municípios diz muito sobre a demanda represada: 2.733 cidades já se inscreveram e foram solicitadas 3.677 equipes, somando ampliações e novas implantações. Não é o governo empurrando um programa que ninguém quer — é gestor municipal correndo atrás de uma resposta para um problema que já lota a porta de entrada.
A caderneta que tenta organizar a bagunça
Junto do programa vem uma ferramenta mais modesta, mas útil: a Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa, disponível em papel e na versão digital pelo app Meu SUS Digital. Parece detalhe, mas quem cuida de idoso conhece o caos — receitas de cinco médicos diferentes, exames espalhados, ninguém sabendo o que o outro prescreveu. Centralizar a informação de saúde do idoso num lugar só é o tipo de coisa simples que evita remédio duplicado, interação perigosa e consulta repetida.
O teste real vem depois do anúncio
Programa lançado com pompa é uma coisa. Programa que chega de fato à casa do seu Antônio acamado no interior do Maranhão é outra. O Padi depende de os municípios conseguirem contratar e segurar geriatra, nutricionista e psicólogo — profissionais que faltam justamente onde a necessidade é maior. O dinheiro federal ajuda, mas não resolve sozinho a escassez de gente qualificada disposta a trabalhar no SUS do interior.
Ainda assim, a direção está certa. Por décadas o SUS tratou o idoso frágil como um problema de pronto-socorro, esperando ele desabar para então agir. Inverter isso — ir até a casa, cuidar antes, evitar a queda — não é caridade. É a forma mais inteligente e mais barata de cuidar de um país que envelhece depressa. O resto é ver se o dinheiro vira presença na porta de quem precisa.
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