Faça a conta: seu médico de família tem 32,9 minutos por ano para cuidar de você

Faça a conta: seu médico de família tem 32,9 minutos por ano para cuidar de você

Não é má vontade nem preguiça. É aritmética. Com 3.500 pessoas por equipe e 40 horas semanais, cada usuário cabe em duas consultas de 16 minutos por ano — se ninguém adoecer fora da conta. A revisão da Política Nacional de Atenção Básica, prevista para o fim de 2026, vai ter que encarar esse número.

SaúdeCidade ·

Você já saiu de uma consulta no posto com a sensação de que o médico mal olhou para você? De que digitou mais do que examinou, e que o "próximo" já estava na porta antes de você terminar de guardar a receita?

Antes de concluir que aquele profissional específico não se importa, faça a conta que a discussão sobre a revisão da Política Nacional de Atenção Básica, a PNAB, colocou na mesa.

Um médico de família trabalha 40 horas semanais, durante cerca de 48 semanas por ano. A equipe é responsável por uma população de até 3.500 pessoas. Divida uma coisa pela outra e você chega ao número: 32,9 minutos de atenção médica por pessoa, por ano. Duas consultas de 16 minutos e meio. Em doze meses.

É todo o tempo que existe. Não é o tempo que sobra depois da burocracia — é o total bruto, antes de descontar reunião de equipe, visita domiciliar, prontuário, atestado, renovação de receita e a criança com febre que chegou sem agendamento.

De onde vem esse 3.500

A PNAB foi criada em 2006, no contexto do Pacto pela Saúde. Desde então mudou de número algumas vezes, sempre para o mesmo lado.

A versão de 2011 estabelecia um teto de 4 mil habitantes por equipe. A de 2017 passou a recomendar uma faixa de 2 mil a 3.500 pessoas. Na prática, "faixa recomendada" costuma virar teto adotado, e o teto costuma virar o número real — porque o município tem uma população para cobrir e um orçamento que não cresce junto.

A aritmética da atenção básica:

• Jornada do médico de família: 40 horas semanais, cerca de 48 semanas por ano
• População por equipe: até 3.500 pessoas (faixa recomendada desde a PNAB 2017)
• Resultado: 32,9 minutos de atenção médica por pessoa, por ano
• Equivalente a duas consultas de 16,5 minutos em 12 meses
• PNAB 2011 permitia até 4 mil habitantes por equipe
• Nova revisão da PNAB: publicação prevista para o fim de 2026

Discussão sobre a revisão da Política Nacional de Atenção Básica, agosto de 2026.

O que se perde quando o tempo encurta

A atenção primária tem quatro atributos que a definem: integralidade, longitudinalidade, acesso e coordenação do cuidado. Vale traduzir cada um, porque é neles que a conta acima bate.

Integralidade é olhar a pessoa inteira, não a queixa da vez. Longitudinalidade é acompanhar ao longo do tempo — o mesmo profissional, o mesmo vínculo, ano após ano. Acesso é conseguir ser atendido quando precisa. Coordenação é ser o ponto que organiza o resto da jornada do paciente pelo sistema.

Em 16 minutos e meio, duas vezes por ano, dá para tratar a queixa. Não dá para fazer os outros três.

"Existe um empobrecimento do trabalho, um empobrecimento do cuidado, uma sobrecarga muito grande dos trabalhadores", resume a pesquisadora Laura Feuerwerker.

Empobrecimento é a palavra exata. O atendimento não desaparece — ele encolhe. Vira despacho de sintoma. E aí a hipertensão que precisava de conversa sobre alimentação vira só uma receita renovada; o idoso que estava confuso vira "coisa da idade"; a depressão que se anunciava vira insônia tratada com remédio para dormir.

A terceirização e a porta giratória

Há um segundo problema apontado na discussão, e ele é sobre quem fica. A terceirização da contratação produz alta rotatividade de profissionais — e rotatividade é o antônimo direto de longitudinalidade.

O valor do médico de família não está apenas no diploma: está em conhecer a família. Saber que aquela senhora mora sozinha, que o filho bebe, que a casa tem escada, que ela já parou o remédio duas vezes por causa do preço. Isso não está no prontuário eletrônico. Está na memória de quem acompanha há anos.

Quando o contrato é precário e o profissional troca a cada 12 ou 18 meses, o sistema perde essa memória inteira a cada ciclo. O paciente recomeça. E recomeçar, em saúde, custa consulta, exame e tempo.

A discussão aponta ainda a falta de flexibilidade de horário, que impede o profissional de fazer pós-graduação, e a redução das equipes multidisciplinares — menos enfermeiro, menos agente comunitário, menos psicólogo, menos nutricionista. Cada profissional que sai da equipe devolve ao médico uma tarefa que não era dele.

Por que isso importa mesmo para quem tem plano de saúde

É tentador ler tudo isso como um problema do SUS que não afeta quem paga convênio. Não é bem assim.

A atenção primária é o que impede que problema pequeno vire problema caro. Diabetes acompanhada não vira amputação. Hipertensão controlada não vira AVC. Câncer rastreado no tempo certo não vira UTI. Cada consulta de 16 minutos que não aconteceu direito reaparece, meses depois, como internação — e internação é o gasto que pressiona todo o sistema de saúde do país, público e privado.

Países com atenção primária forte gastam menos e vivem mais. Não é slogan: é a evidência mais consistente da literatura de sistemas de saúde nas últimas quatro décadas.

O que a revisão da PNAB tem pela frente

A atualização da política está em discussão, com publicação prevista para o fim de 2026. E o debate real não é sobre redação de portaria — é sobre orçamento.

Reduzir a população por equipe significa criar mais equipes. Mais equipes significam mais médicos, mais enfermeiros, mais agentes comunitários e mais dinheiro do financiamento federal. Não existe versão dessa reforma que seja apenas normativa.

A pergunta que a revisão precisa responder é simples e cara: o Brasil quer uma atenção básica que atenda todo mundo mal, ou uma que atenda de verdade — e esteja disposto a pagar por isso?

Enquanto a resposta não vem, vale guardar o número. Trinta e dois minutos e cinquenta e quatro segundos por ano. É esse o tamanho da consulta que o país decidiu financiar — e é por isso que o médico do posto olha para o relógio.

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