Quase 20 crianças por dia vão parar no hospital queimadas — e a fogueira de São João é só a ponta da brasa
A Sociedade Brasileira de Pediatria acendeu o alerta para as festas juninas e julinas: em dois anos, foram 13,8 mil internações de crianças e adolescentes por queimaduras no Brasil. Mais da metade tinha menos de 5 anos — e a maioria dos acidentes acontece longe da fogueira, dentro de casa.
Junho chega e o Brasil inteiro cheira a quentão, milho cozido e fogueira. É a época mais gostosa do calendário para criança: bandeirinha, fogos, barraca de pescaria, brincadeira até tarde. O problema é que tudo o que torna a festa junina divertida — o fogo, a panela fervendo, o rojão, o caldeirão de quentão sobre o fogareiro — é também uma lista de tudo o que pode mandar uma criança para a emergência.
E manda. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou nesta semana um alerta com números que tiram qualquer romantismo da fogueira: entre 2024 e 2025, o Brasil registrou 13,8 mil internações de crianças e adolescentes por queimaduras e acidentes térmicos. Isso dá uma média de quase 20 internações por dia — todo santo dia do ano, não só em junho.
Quem se queima é quem ainda nem aprendeu a ter medo
O dado mais cruel da estatística é a idade. As crianças com menos de 5 anos respondem por 53,8% de todas as internações pediátricas por queimadura. Mais da metade. São os pequenos que ainda engatinham, que acabaram de aprender a andar, que enfiam a mão em tudo o que é colorido, brilhante, quente ou que se mexe — exatamente as características de uma chama, de uma panela ou de um fio de luzinha pisca-pisca.
"As festas fazem parte da cultura e dos momentos de celebração brasileiros, mas exigem atenção redobrada pela exposição a fogos, fogueiras, churrasqueiras e líquidos quentes", resumiu Edson Liberal, presidente da SBP. A curiosidade que faz a criança aprender o mundo é a mesma que a coloca a poucos centímetros do perigo — e nessa idade ela não tem reflexo, nem força, nem noção para recuar a tempo.
• 13,8 mil internações no total (6.965 em 2024 e 6.855 em 2025)
• ~20 crianças e adolescentes internados por dia, em média
• 53,8% dos casos são em menores de 5 anos
• 2.820 internações na faixa de 5 a 9 anos (20%)
• Mais de 300 mortes por ano por queimaduras e acidentes térmicos
Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria, com base em dados de internação do SUS.
O vilão não é o rojão — é a panela da cozinha
Aqui vem a parte que contraria a intuição. Quando se fala em queimadura de criança, a imagem que vem à cabeça é a do rojão na mão, do balão, da fogueira gigante. Mas a principal causa de queimadura infantil não está no terreiro da festa — está na sua cozinha. O contato com fontes e substâncias quentes, em ambiente doméstico e durante o preparo de comida, é o campeão disparado.
É a alça da panela virada para fora do fogão, ao alcance de uma mãozinha. É a caneca de café fervendo na beira da mesa. É o caldeirão de quentão no chão do quintal, perto demais de quem mal anda. A festa junina só agrava um cenário que já existe o ano inteiro: mais gente cozinhando ao mesmo tempo, mais líquido quente circulando, mais distração coletiva — e mais criança solta no meio.
Depois da queimadura vem a parte que ninguém conta
Queimadura não é um acidente que acaba quando a dor passa. É talvez o trauma que mais cobra preço no tempo. Uma queimadura grave significa internação prolongada, cirurgias de enxerto, curativos diários que doem, risco de infecção, fisioterapia para não perder o movimento da articulação — e, depois de tudo isso, a cicatriz que acompanha a criança pela vida inteira, no corpo e na cabeça.
Por isso o número de mais de 300 mortes por ano conta só parte da tragédia. Para cada criança que morre, há dezenas que sobrevivem com sequelas. E praticamente todas essas histórias têm a mesma origem banal: um descuido de segundos num ambiente que ninguém tinha adaptado para ter uma criança por perto.
O que de fato protege (e não estraga a festa)
A boa notícia é que queimadura é, entre todos os acidentes, um dos mais evitáveis. Não exige equipamento caro nem mágica — exige que o adulto assuma que a criança não tem juízo de risco e organize o ambiente por ela. Criança não brinca com fogo de artifício, fósforo, isqueiro ou qualquer coisa que envolva chama. Ponto. Não é questão de confiar mais ou menos no filho: o reflexo dele não está pronto.
• Criança não manuseia fogos, fósforo, isqueiro ou estrelinha
• Supervisão de um adulto o tempo todo perto de fogueira, churrasqueira e fogão
• Cabos de panela sempre virados para dentro do fogão
• Líquidos quentes (quentão, café, óleo) longe da borda da mesa e do chão
• Fogueira e caldeirão isolados, com a criançada a distância segura
• Em caso de queimadura: água corrente em temperatura ambiente, nunca gelo, pasta de dente, manteiga ou borra de café
E se acontecer, esqueça a sabedoria da vovó. Nada de manteiga, pasta de dente, clara de ovo ou pó de café na queimadura — tudo isso piora a lesão e aumenta o risco de infecção. O certo é resfriar com água corrente em temperatura ambiente por alguns minutos, cobrir com pano limpo e procurar atendimento. Em queimadura extensa ou em rosto, mãos e genitais, vá direto ao hospital.
A fogueira de São João existe há séculos e vai continuar existindo — ninguém está pedindo para apagar a festa. Mas, perto de uma criança de 2 anos, a diferença entre uma noite de quentão e uma noite na emergência não é a sorte. É o adulto que estava de olho.
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