Pela primeira vez, o SUS reconstruiu mais mamas do que amputou — e esse número conta uma história boa
Em 2025, foram 19,4 mil reconstruções mamárias contra 18,3 mil mastectomias na rede pública. Um crescimento de 57,7% em três anos que mistura dois avanços: tratamentos que amputam menos e um sistema que finalmente devolve o que a doença tirou.
Existe um tipo de estatística que passa despercebida porque não vem embrulhada em tragédia. Esta é uma delas: em 2025, pela primeira vez na história, o SUS fez mais reconstruções de mama do que mastectomias. Foram 19,4 mil reconstruções contra 18,3 mil cirurgias de remoção da mama. Parece só um cruzamento de linhas num gráfico. É, na verdade, a diferença entre um sistema que amputa e um sistema que também reconstrói.
Para entender por que isso importa, vale lembrar o que uma mastectomia significa para quem passa por ela. Não é só a retirada de um tumor — é olhar no espelho todos os dias e ver a marca da doença gravada no corpo. A reconstrução não é vaidade nem luxo; é a última etapa de um tratamento que começou com um diagnóstico assustador e agora, enfim, tenta devolver à mulher o corpo que era dela antes do câncer.
Dois avanços numa estatística só
O número esconde duas boas notícias empilhadas. A primeira é que os tratamentos oncológicos evoluíram a ponto de reduzir a necessidade de mastectomias totais. Detecção mais precoce, quimioterapia que encolhe tumores antes da cirurgia e técnicas conservadoras fazem com que menos mulheres precisem perder a mama inteira. Menos amputação é, por si só, uma vitória.
A segunda é que o Ministério da Saúde ampliou o acesso à reconstrução para mulheres que estavam represadas na fila de espera — muitas delas há anos, convivendo com a ausência enquanto aguardavam uma vaga que não vinha. A lei já garantia esse direito desde 2013; o que mudou foi o sistema conseguir, na prática, entregar o que a lei prometia no papel.
• 19,4 mil reconstruções em 2025, contra 18,3 mil mastectomias
• Crescimento de 57,7% ante 2022 (eram 12,3 mil)
• R$ 40,2 milhões em recursos federais; 176 hospitais de alta complexidade habilitados
• Aporte adicional: R$ 15,9 mi em 2026 e R$ 27,4 mi/ano a partir de 2027
O Inca estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano entre 2026 e 2028 — o tumor mais incidente entre mulheres.
O que o dinheiro está comprando
Boas intenções não operam ninguém. Por trás do número há R$ 40,2 milhões em recursos federais e 176 hospitais de alta complexidade habilitados para fazer o procedimento. E o Ministério promete manter a torneira aberta: mais R$ 15,9 milhões em 2026 e R$ 27,4 milhões por ano a partir de 2027 — um aumento de R$ 3,1 milhões em relação ao que se gastou em 2025. A meta declarada é ambiciosa: ampliar a cirurgia reparadora para "todas as situações de mutilação mamária".
Faz parte do mesmo esforço o investimento em detectar o câncer antes. Entre 2023 e 2025, o SUS aplicou R$ 37,8 milhões em 27 novos mamógrafos e R$ 302,4 milhões em 19 projetos de combate ao câncer de mama. A lógica é simples e comprovada: quanto mais cedo o tumor é encontrado, menor a chance de precisar amputar — e maior a chance de a reconstrução ser o desfecho, não a exceção.
Por que o câncer de mama continua sendo prioridade
O contexto epidemiológico não deixa espaço para relaxar. O Instituto Nacional de Câncer estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano entre 2026 e 2028. É, disparado, o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras. Cada uma dessas dezenas de milhares de mulheres é uma candidata potencial a precisar, um dia, de uma cirurgia — e agora, com sorte e sistema, de uma reconstrução em vez de só uma remoção.
"Estamos investindo para garantir atendimento integral às pacientes oncológicas", afirmou o ministro da Saúde. A palavra que importa nessa frase é integral: tratar o câncer não termina quando o tumor sai. Termina quando a mulher recupera não só a saúde, mas o direito de se olhar no espelho sem ver, todos os dias, a cicatriz de uma batalha que ela já venceu.
O que ainda falta
Nenhum número desmonta as filas de uma vez. Ainda há mulheres esperando, ainda há desigualdade regional entre quem mora perto de um dos 176 hospitais habilitados e quem mora a centenas de quilômetros do mais próximo. A linha que se cruzou em 2025 não significa que o problema acabou — significa que a direção está certa. E depois de tantos anos ouvindo que o SUS só sabe faltar, é bom registrar quando ele acerta.
Reconstruir mais do que amputar não é uma frase de efeito. É um sistema público de saúde dizendo, com dinheiro e cirurgia, que curar o câncer de mama não pode ser sinônimo de deixar a mulher marcada para sempre. Levou tempo demais. Mas a linha, enfim, cruzou.
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