61% contra 87%: o mesmo câncer de pulmão, dois países diferentes dentro do Brasil

61% contra 87%: o mesmo câncer de pulmão, dois países diferentes dentro do Brasil

Um estudo do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica publicado na JCO Global Oncology mediu o abismo. No SUS, 22% dos pacientes recebem terapia-alvo de início. Na saúde suplementar, 54%. A sobrevida em três anos separa os dois grupos por 26 pontos percentuais — e o gargalo custa menos que uma sessão de quimioterapia.

SaúdeCidade ·

Duas pessoas com o mesmo diagnóstico. O mesmo tipo histológico de tumor, a mesma mutação, o mesmo estágio, a mesma idade. Uma tem plano de saúde. A outra depende do SUS.

Três anos depois, a chance de a primeira estar viva é de 87,2%. A da segunda, 61,4%.

Não é uma metáfora nem uma projeção. São os números de um estudo do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), publicado em 24 de junho na JCO Global Oncology, que acompanhou 101 pacientes em 12 centros oncológicos brasileiros entre 2015 e 2020, todos com câncer de pulmão não pequenas células com rearranjo do gene ALK.

O que é o ALK e por que ele é uma boa notícia

O câncer de pulmão não pequenas células responde por cerca de 85% dos casos de câncer de pulmão. Dentro dele existe um subgrupo pequeno — em torno de 5% — em que o tumor carrega um rearranjo no gene ALK. Duas peças de DNA que não deveriam estar juntas se fundem e produzem uma proteína alterada que fica permanentemente ligada, mandando a célula se multiplicar sem parar.

Isso soa terrível, e é. Mas tem um lado luminoso: quando o tumor depende de um único defeito para crescer, existe um alvo. E existem drogas desenhadas exatamente para ele — os inibidores de ALK, comprimidos que desligam a proteína defeituosa. É a diferença entre bombardear a cidade inteira e cortar a energia de um prédio específico.

Pacientes com tumor ALK-positivo tratados com terapia-alvo vivem anos a mais do que os tratados só com quimioterapia, com muito menos toxicidade. Isso é medicina de precisão funcionando. E é justamente por isso que os números do estudo doem tanto.

O abismo, em números (GBOT / JCO Global Oncology):

• Terapia-alvo como primeiro tratamento: 22,2% no SUS × 53,9% na saúde suplementar
Sobrevida em 3 anos: 61,4% no SUS × 87,2% na suplementar
• Acesso ao teste ALK: 43,9% × 93,9%
Tempo até o diagnóstico: 3,6 meses × 1,6 mês
• Quimioterapia como opção principal: 77,8% × 46,1%
• Principal barreira apontada por 58,3% de 156 oncologistas: falta de financiamento dos testes moleculares

O gargalo não é o remédio caro. É o exame barato

Aqui está a parte que reorganiza o problema inteiro. A desigualdade não começa na farmácia de alto custo — começa no laboratório de patologia.

Para saber se um tumor é ALK-positivo, é preciso fazer um teste molecular na amostra da biópsia. No SUS, apenas 43,9% dos pacientes tiveram acesso a esse teste. Na saúde suplementar, 93,9%. Ou seja: mais da metade dos pacientes do sistema público nunca chegou a saber se tinha uma mutação tratável.

E quem não é testado não é diagnosticado. E quem não é diagnosticado com a mutação recebe o tratamento padrão — quimioterapia, usada como opção principal em 77,8% dos casos do SUS contra 46,1% na rede privada. A quimioterapia não é ruim. Ela simplesmente não é o melhor tratamento disponível para aquele tumor específico.

É a versão oncológica de dar antibiótico de amplo espectro sem cultura: você trata no escuro porque ninguém acendeu a luz.

Quando 156 oncologistas brasileiros foram entrevistados entre outubro de 2024 e março de 2025, 58,3% apontaram a mesma barreira principal: ausência de financiamento para os testes moleculares. Não é falta de tecnologia, não é falta de laboratório, não é falta de médico que saiba pedir. É falta de código de faturamento.

Dois meses a mais de espera — e o que acontece nesse intervalo

O estudo também mediu o tempo até o diagnóstico: 3,6 meses no SUS contra 1,6 mês na saúde suplementar. Dois meses de diferença.

Para uma pedra no rim, dois meses são um transtorno. Para um câncer de pulmão avançado, dois meses são estágio de doença. É tempo suficiente para o tumor progredir, para novas metástases aparecerem, para o paciente perder peso e condição clínica — e, com frequência, para deixar de ser elegível a um tratamento que teria funcionado.

Some as duas coisas: chegar depois e chegar sem saber qual é a mutação. A diferença de 26 pontos percentuais na sobrevida em três anos deixa de ser um mistério estatístico e vira aritmética.

Como resumiu Samira Mascarenhas, presidente eleita do GBOT, as terapias-alvo são hoje o tratamento preferencial — e o fato de a maioria dos pacientes do SUS ainda não conseguir acessá-las é a definição operacional de desigualdade em saúde.

Por que isso é economicamente burro, além de injusto

Existe um argumento recorrente de que o SUS não pode bancar medicina de precisão. Ele desmonta rápido diante da conta real.

Um painel de testagem molecular custa uma fração do que custa um único ciclo de quimioterapia com todos os seus insumos, internações de dia, medicações de suporte e manejo de efeitos adversos. Tratar um paciente ALK-positivo com quimioterapia é gastar dinheiro num tratamento que se sabe subótimo, colher toxicidade, internar por neutropenia febril — e depois, se ele sobreviver o suficiente, acabar chegando à terapia-alvo em segunda ou terceira linha, quando o benefício é menor.

Não testar não economiza. Adia o gasto e cobra a diferença em anos de vida.

O que fazer se o diagnóstico é seu ou de alguém próximo

Câncer de pulmão não pequenas células — o que perguntar:

"Meu tumor foi testado para mutações?" — pergunte por EGFR, ALK, ROS1 e PD-L1 pelo nome
"A amostra da biópsia é suficiente para o teste molecular?" — material insuficiente é causa comum de teste não feito
• Peça cópia do laudo anatomopatológico completo e guarde
• Pergunte se o centro participa de programas de testagem gratuita de laboratórios ou sociedades médicas — vários existem
Segunda opinião em centro de alta complexidade é direito, não afronta
• Nunca fumante com câncer de pulmão tem chance maior de ter mutação tratável — insista ainda mais no teste

E vale dizer o óbvio que o estudo não diz: o câncer de pulmão continua sendo, na esmagadora maioria dos casos, uma doença evitável. O cigarro segue matando mais brasileiros do que qualquer terapia-alvo é capaz de salvar.

Mas para os 101 pacientes desse estudo — e para os milhares que eles representam — a prevenção já não estava em jogo. O que estava em jogo era um exame de laboratório que metade deles não fez. Vinte e seis pontos percentuais de sobrevida separados por um teste que ninguém pediu porque ninguém paga.

Compartilhar: