162 mil crianças internadas por acidente em um ano — e 90% dava para evitar
Quedas e queimaduras respondem por 63% das internações de menores de 14 anos no SUS. São 10,7 mil crianças hospitalizadas por mês, alta de 7,7% em três anos. As intoxicações subiram quase 20%. Quase tudo acontece dentro de casa, com adulto por perto.
A cena mais perigosa da infância brasileira não é atravessar a rua. É o cabo da panela virado para fora do fogão.
Em 2025, 162 mil crianças e adolescentes de até 14 anos foram internados no Brasil por causa de acidentes. É quase um décimo de todas as internações por acidente do país, considerando todas as idades. Dá uma média de 10,7 mil crianças por mês ocupando um leito por algo que, em mais de 90% dos casos, não precisava ter acontecido.
E o número está subindo: alta de 7,7% em três anos, sendo 5,4% só de 2024 para 2025.
O ranking do que machuca criança no Brasil
A distribuição desmonta a intuição de qualquer adulto. Perguntada de improviso, a maioria das pessoas chutaria trânsito ou afogamento. Errado nos dois casos.
Quedas lideram com folga: mais de 55 mil internações, ou 43,4% do total. Em segundo, queimaduras, com mais de 25 mil casos (19,6%). Juntas, as duas causas somam 63% — quase dois terços de tudo.
Acidentes de trânsito vêm só em terceiro, com 12,6 mil (9,9%). Intoxicações somam 4,2 mil (3,3%). Sufocação, 644. Afogamento, 261. Armas de fogo, 70.
Os dois primeiros colocados têm um endereço em comum, e não é a rua. É a sala, a cozinha e a janela do quarto.
• Quedas: 55 mil+ — 43,4%
• Queimaduras: 25 mil+ — 19,6%
• Trânsito: 12.600 — 9,9%
• Intoxicações: 4.200 — 3,3%
• Sufocação: 644 — 0,5%
• Afogamento: 261 — 0,2%
• Arma de fogo: 70 — 0,1%
Total: 162 mil internações — 9,7% de 1,6 milhão de internações por acidente em todas as idades
Cada idade tem seu acidente
Os dados por faixa etária são o que transforma estatística em manual de prevenção. Cada tipo de acidente tem uma idade preferida, e ela segue a curva do desenvolvimento motor.
Afogamento é de 1 a 4 anos — 71,6% dos casos. Sete em cada dez. É a idade em que a criança anda mas não nada, alcança a borda mas não boia, e some do campo de visão em quinze segundos. Não é só piscina: é balde, banheira, tanque, poça funda.
Sufocação também é de 1 a 4 anos — 49,1%. Metade. É a fase em que tudo vai para a boca: uva inteira, pipoca, pilha botão, tampinha, pedaço de balão.
Intoxicações se concentram entre 1 e 4 anos (37,7%) e 5 a 9 (31,2%). Dois terços dos envenenamentos de criança acontecem antes dos dez anos, com produto que estava no armário de baixo da pia ou no criado-mudo da avó.
Trânsito, ao contrário, é adolescência: 50,4% dos casos estão entre 10 e 14 anos. É quando a criança ganha autonomia para ir sozinha, pega bicicleta, sobe na garupa de moto.
A leitura prática: a casa é o campo minado até os nove; a rua assume depois dos dez. Quem prepara a casa e esquece de preparar o pré-adolescente para a rua só trocou de risco.
O que cresceu — e por quê
Entre 2024 e 2025, três categorias subiram acima da média. Intoxicações dispararam 19,7%. Sufocação subiu 10,8%. Queimaduras, 7,4%.
Só uma caiu: acidentes com arma de fogo, -13,6%.
Quase 20% a mais de crianças envenenadas em um ano não é ruído estatístico. É comportamento coletivo mudando. Mais medicamento circulando solto pela casa, mais cápsula de detergente com cara de bala, mais produto de limpeza reembalado em garrafa PET — o hábito nacional de guardar água sanitária em garrafa de refrigerante mata criança há décadas e não desapareceu.
E há o fator que os especialistas do relatório apontam sem meias palavras: a distração do cuidador com o celular. É desconfortável de ouvir, e é justamente por isso que precisa ser dito. Supervisionar criança pequena não é estar no mesmo cômodo. É estar olhando.
Os quinze segundos que você leva para responder uma mensagem são exatamente o tempo em que uma criança de dois anos vira uma panela sobre si mesma.
O mapa da desigualdade também está aqui
Em números absolutos, o ranking segue a população: São Paulo (19.837), Minas Gerais (12.183) e Paraná (10.708) lideram.
Mas quando se corrige pela população, o mapa se inverte de forma reveladora. As maiores taxas por 100 mil habitantes estão no Pará (120), Tocantins (113) e Maranhão (102). As menores, em Sergipe (13), Rio Grande do Norte (39) e Rio de Janeiro (43).
Uma criança no Pará tem quase dez vezes mais chance de ser internada por acidente que uma criança em Sergipe. Nenhuma diferença biológica explica isso.
O que explica é fogão a lenha, botijão dentro de casa, casa de madeira, ausência de grade em janela, rio no quintal, moto como transporte familiar e menos oferta de atenção primária para resolver o caso pequeno antes de virar internação. Acidente infantil, como quase tudo em saúde, tem CEP.
O que fazer (de verdade)
Prevenção de acidente doméstico não é lista de vinte itens que ninguém cumpre. É meia dúzia de mudanças estruturais que funcionam sozinhas, mesmo quando o adulto se distrai — e o adulto vai se distrair.
Cabo de panela sempre virado para dentro. Use preferencialmente as bocas de trás do fogão. Queimadura por líquido quente derramado é a campeã absoluta em criança pequena, e é 100% evitável com esse gesto.
Redes ou grades em todas as janelas, e nada de móvel escalável embaixo delas. Cadeira encostada na janela é escada.
Medicamento e produto de limpeza em armário alto e trancado — não embaixo da pia. E nunca, em hipótese alguma, reembalar produto químico em garrafa de bebida.
Nada de uva inteira, pipoca, amendoim ou salsicha em rodela antes dos 4 anos. Pilha botão é emergência médica imediata, não "vamos esperar sair".
Água exige olho, não ouvido. Criança se afoga em silêncio, em menos de um minuto, em vinte centímetros de água. Balde com água no quintal é armadilha.
Cadeirinha até os 10 anos ou 1,45 m, banco de trás sempre. E capacete na bicicleta, mesmo na quadra do prédio.
Nenhum desses itens custa caro. Nenhum exige política pública, embora todos melhorem com ela. É a diferença entre um susto e uma internação de três semanas com enxerto de pele.
O Brasil interna dez mil e setecentas crianças por mês por acidente. Mais de nove mil delas estariam brincando em casa se um cabo de panela estivesse virado para o outro lado.
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