O Brasil fabrica 79% dos remédios que compra — e importa 82% da conta
A indústria nacional chegou a 79,2% das unidades de medicamento adquiridas por estados e municípios em 2024, contra 69,1% em 2020. Mas nos biológicos e nos medicamentos novos, que consomem R$ 20,93 bilhões do dinheiro público, a participação brasileira é de 15,2% e 12%. Fabricamos o barato. Importamos o caro.
Existe uma frase que soa bem em qualquer discurso: "a indústria nacional já fabrica quase 80% dos medicamentos comprados pelo poder público".
É verdade. E é quase inútil sozinha.
Um levantamento da ALANAC cruzou mais de 135 mil registros do Banco de Preços em Saúde com 1.319 pareceres de avaliação de medicamentos da Anvisa, classificando cada fabricante por CNPJ e origem de capital, com dados até 19 de agosto de 2026. O resultado tem duas metades que contam histórias opostas.
A metade boa: a curva subiu de verdade
Em 2020, empresas de capital nacional respondiam por 69,1% das unidades de medicamento compradas por estados e municípios. Em 2024, chegaram a 79,2%.
Dez pontos percentuais em quatro anos, em um setor que se move devagar por natureza — registro sanitário, planta fabril, validação de processo, tudo isso leva anos. A projeção do levantamento é ultrapassar 80% em 2025 e se aproximar de 83% em 2026.
No segmento de similares, a dominância é ainda mais clara: 66,7% das petições ativas na Anvisa são de empresas brasileiras.
Isso importa mais do que parece. Quando o SUS compra anti-hipertensivo, metformina, antibiótico comum e analgésico de uma fábrica em Goiás em vez de uma na Índia, ele encurta a cadeia de abastecimento, reduz risco cambial e diminui a chance de desabastecimento por crise logística. A pandemia foi uma aula cara sobre o que acontece quando a fábrica está do outro lado do planeta e o mundo inteiro faz o pedido no mesmo dia.
A metade ruim: onde está o dinheiro, não estamos nós
Agora vire a página do relatório.
Nos medicamentos inovadores e novos, a participação nacional é de 12%. Nos biológicos, de 15,2%.
E é exatamente aí que o dinheiro está. Biológicos e medicamentos novos somaram R$ 20,93 bilhões em 2024 — 81,7% de todo o gasto do canal governo com medicamentos. Só que representam apenas 21,1% das unidades.
Faça a conta do que isso significa. Um quinto das caixas consome quatro quintos do orçamento. E nesse quinto caríssimo, mais de 8 em cada 10 reais vão para fora.
Um único contrato ilustra a escala: o tezepelumabe, da AstraZeneca, custou R$ 1,66 bilhão — cerca de 20% de todo o valor analisado em 2024. Um remédio. Um quinto do valor.
Então o "79,2%" é real, e é também uma estatística de volume, que é a métrica mais generosa possível para quem fabrica genérico e similar. Contar caixinha em vez de contar real é como dizer que você domina o mercado de transporte porque vende mais bicicletas que a Boeing vende aviões.
Por volume (unidades):
• Indústria nacional: 79,2% em 2024 — era 69,1% em 2020
• Projeção: +80% em 2025 e ~83% em 2026
• Similares: 66,7% das petições ativas são de empresas brasileiras
Por valor (reais):
• Biológicos e novos: R$ 20,93 bilhões em 2024
• Isso é 81,7% do gasto — e só 21,1% das unidades
• Participação nacional em inovadores: 12%
• Participação nacional em biológicos: 15,2%
• Um contrato (tezepelumabe/AstraZeneca): R$ 1,66 bilhão, ~20% do valor analisado
Fonte: ALANAC, a partir de 135 mil+ registros do Banco de Preços em Saúde e 1.319 pareceres da Anvisa
Por que a diferença entre um comprimido e um biológico é abissal
Não é falta de vontade nem de competência. É a natureza do produto.
Fabricar um genérico de pressão é química: você sintetiza uma molécula pequena, com estrutura conhecida e patente vencida, e prova que ela é bioequivalente à original. Complexo, regulado, mas replicável.
Fabricar um biológico é biologia: você precisa de células vivas geneticamente modificadas produzindo uma proteína enorme, em biorreator, sob condições que alteram o produto final se variarem um pouco. O "genérico" de um biológico nem se chama genérico — se chama biossimilar, e a palavra "similar" no nome não é acidente. Nunca é idêntico.
Uma planta de biológicos custa centenas de milhões de reais, leva de cinco a oito anos entre projeto e liberação sanitária, e exige um tipo de mão de obra que o país forma em quantidade limitada.
É uma barreira de entrada altíssima — e é justamente por isso que quem está dentro dela cobra R$ 1,66 bilhão por um contrato e não precisa negociar muito.
O que o governo está fazendo com isso
A resposta oficial tem nome: Complexo Econômico-Industrial da Saúde, com meta de investimento de R$ 42 bilhões até 2026. BNDES e Finep já destinaram R$ 11,3 bilhões ao setor desde 2023.
A meta declarada é elevar a autonomia produtiva nacional de cerca de 50% para 70% até 2033.
Sete anos para vinte pontos percentuais em um setor que leva quase uma década para maturar uma fábrica. É ambicioso e não é absurdo — mas depende de uma coisa que a política industrial brasileira historicamente tem dificuldade de sustentar: continuidade entre governos.
O instrumento mais poderoso nessa mesa não é o financiamento, é a compra. As Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo funcionam assim: o Estado garante a compra por alguns anos em troca de transferência de tecnologia. É a única moeda de troca que um país com mercado grande e tecnologia pequena realmente tem.
E o IFA, que é o andar de baixo do problema
Há um dado que não aparece nesse levantamento e que precisa entrar na conversa: mesmo os medicamentos "nacionais" costumam ser feitos com insumo farmacêutico ativo importado, majoritariamente da China e da Índia.
Ou seja: a caixa é brasileira, o comprimido é prensado aqui, o emprego é aqui — e a molécula que faz o remédio funcionar atravessou o Pacífico.
Isso não anula o avanço dos 79,2%. Envasar, formular e distribuir localmente é infraestrutura real e gera resiliência real. Mas significa que o número de "autonomia" tem um segundo fundo, e quem lê relatório de política industrial precisa saber disso antes de comemorar.
Soberania farmacêutica de verdade se mede em três camadas: quem formula, quem produz o princípio ativo e quem detém a patente. O Brasil vai bem na primeira, mal na segunda e quase não existe na terceira.
Por que isso chega até a sua farmácia do posto
Parece assunto de economista, mas o efeito é concreto e cotidiano.
Quando 82% do orçamento de medicamentos é gasto com produto importado precificado em dólar por um fornecedor único, três coisas acontecem. O câmbio vira variável de saúde pública — uma alta do dólar tira remédio da prateleira. A negociação de preço fica desequilibrada, porque não existe segundo fornecedor para ameaçar. E o dinheiro que sobra para o resto — para a atenção básica, para o genérico que atende milhões — é o que sobrar depois do contrato bilionário.
Cada biossimilar nacional que entra no mercado derruba o preço do original em faixas que costumam ir de 30% a 60%. Não é patriotismo: é o efeito banal da concorrência sobre um monopólio.
O Brasil comemorou a marca de 79,2% e vai comemorar os 83%. São números legítimos, conquistados, e sinalizam um parque industrial que existe e funciona.
Mas o país que fabrica quatro em cada cinco caixas e paga quatro em cada cinco reais para fora ainda não é um país com autonomia farmacêutica. É um país com uma boa linha de envase.
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