O Super El Niño chega em outubro — e seu prontuário não vai junto
Um dos eventos climáticos mais intensos das últimas décadas deve atingir o pico entre outubro e dezembro. Ele vai deslocar pacientes entre municípios, lotar unidades e exigir reorganização rápida da rede. O problema é que, no Brasil, o histórico clínico de quem se desloca costuma ficar para trás.
Uma enchente não é só um evento meteorológico. É um evento de saúde com efeito retardado.
Nas primeiras horas, o problema é resgate e trauma. Na primeira semana, é leptospirose, diarreia, ferida infectada. No primeiro mês, é o hipertenso que perdeu a receita, o diabético que perdeu a insulina na água, a gestante que trocou de cidade e chegou ao pré-natal de outra unidade sem nenhum exame na mão.
Essa terceira onda mata mais do que a primeira. E ela é, essencialmente, um problema de informação.
O Super El Niño previsto para atingir o pico entre outubro e dezembro de 2026 — classificado como um dos eventos climáticos mais intensos das últimas décadas — já mobilizou governos estaduais, Defesa Civil e secretarias de saúde. A pergunta que quase ninguém está fazendo é se o sistema sabe quem é o paciente quando ele aparece do outro lado do estado.
O que o clima faz com a rede de saúde
Eventos extremos produzem quatro efeitos simultâneos sobre o sistema, e cada um deles piora os outros três.
Aumentam a demanda — mais atendimentos, mais internações, mais urgência, em um sistema que já opera perto do limite em agosto de um ano normal.
Deslocam pacientes entre municípios — quem sai de casa vai para a casa de parente, para abrigo, para outra cidade. O prontuário fica na UBS de origem.
Sobrecarregam unidades específicas — nem sempre as maiores. Um hospital de pequeno porte que atende três mil pessoas pode receber de repente o dobro.
Exigem reorganização rápida da rede — remanejar equipe, redistribuir insumo, redefinir referência. Tudo isso depende de saber, em tempo quase real, o que está acontecendo onde.
Some ao pacote o que vem depois da água: arboviroses. Padrões alterados de chuva e temperatura mexem diretamente com a densidade de Aedes aegypti e com a curva sazonal de dengue, chikungunya e zika, que no Brasil já começa a subir justamente no verão que sucede o pico do fenômeno.
A "saúde desconectada"
Em uma crise, o que precisa correr mais rápido que o paciente é o dado do paciente: exames feitos, prescrições em uso, alergias, histórico, condições crônicas.
No Brasil, raramente corre. O que acontece na prática, e todo mundo que trabalha na ponta conhece de cor:
O exame é repetido porque ninguém encontra o anterior — gastando reagente, tempo de técnico e vaga de laboratório que faltará para outra pessoa. A prescrição é refeita no escuro, sem saber o que o paciente já tomava. A fila cresce porque cada atendimento demora o dobro do que deveria. E o recurso, que já era escasso, é desperdiçado no exato momento em que era mais necessário.
O país avançou com o SUS Digital, e seria injusto ignorar isso — a Rede Nacional de Dados em Saúde existe, a receita digital funciona, a Conecte SUS está no celular de milhões de pessoas. Mas o avanço convive com integração insuficiente entre sistemas de instituições diferentes e entre níveis de atenção diferentes.
A UBS usa um sistema. O hospital municipal usa outro. O laboratório terceirizado, um terceiro. O hospital estadual de referência, um quarto. Todos "informatizados", nenhum conversando direito com o vizinho.
Informatizar não é integrar. Um arquivo de aço trancado a chave também guarda a informação perfeitamente — e é igualmente inútil para quem está do lado de fora.
• Pico do Super El Niño previsto para outubro a dezembro de 2026
• Um dos eventos climáticos mais intensos das últimas décadas
• Efeitos sobre a rede: mais demanda, pacientes deslocados, unidades sobrecarregadas, reorganização rápida
• Sem integração: exames repetidos, prescrições refeitas às cegas, filas maiores, desperdício
• O Brasil avançou com o SUS Digital, mas convive com integração insuficiente entre sistemas
• Resistência ao compartilhamento vem de público e privado, por receio competitivo
Por que ninguém quer compartilhar
A parte incômoda: a barreira principal não é técnica. Os padrões existem, são internacionais e estão maduros.
A barreira é que tanto o setor público quanto o privado resistem a compartilhar dados por receio competitivo. Operadora não quer que a concorrente saiba o perfil da sua carteira. Rede hospitalar trata o histórico de atendimento como ativo estratégico. Fornecedor de software vende a dificuldade de migração como recurso do produto — o famoso lock-in, que é uma palavra elegante para "seus dados são reféns".
É comercialmente compreensível e sanitariamente indefensável. O paciente não é ativo de ninguém, e a informação clínica não é propriedade de quem a digitou.
"A capacidade de resposta também depende da circulação da informação", resume o argumento central do debate.
E é aí que a discussão sobre interoperabilidade sai do departamento de TI. Ela não é modernização regulatória nem melhoria administrativa. É infraestrutura crítica, na mesma categoria de gerador de emergência e estoque estratégico de medicamento. Ninguém chama gerador de "melhoria administrativa".
O que dá para fazer até dezembro
Quatro meses não constroem uma arquitetura nacional de dados. Mas há coisas que cabem no prazo, e vale cobrar da sua gestão municipal se estão sendo feitas.
Garantir que as unidades da rede estejam efetivamente enviando dados à Rede Nacional de Dados em Saúde, e não apenas cadastradas nela. Estabelecer protocolo de contingência para paciente deslocado — o que fazer quando alguém chega sem documento e sem histórico. Definir previamente as referências de retaguarda para o caso de uma unidade saturar. E, do lado do cidadão, algo que depende só de você: manter o Conecte SUS atualizado no celular, com receitas e exames recentes.
Essa última dica soa pequena diante de um fenômeno climático planetário. Mas em um abrigo, às três da manhã, um print da última prescrição no celular do paciente resolve um problema que nenhum sistema nacional resolveu em vinte anos.
O Super El Niño vai testar a maturidade digital da saúde brasileira entre outubro e dezembro. A diferença é que, dessa vez, a prova tem data marcada — e o gabarito está publicado há anos.
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