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Anvisa apura 13 casos de perda de visão com canetas — o risco é raro, o sintoma não espera

Anvisa apura 13 casos de perda de visão com canetas — o risco é raro, o sintoma não espera

A agência investiga 13 notificações de neuropatia óptica isquêmica (NOIANA) em usuários de semaglutida e tirzepatida. O risco já está na bula desde junho de 2025, como reação "muito rara". A manchete fala em cegueira; o que você precisa saber é o que fazer se acordar enxergando mal de um olho.

SaúdeCidade ·

Você acorda, abre os olhos e percebe que a metade de baixo do mundo sumiu de um lado. Não dói. Não arde. O olho parece normal no espelho. A tentação é esperar passar, lavar o rosto, ir trabalhar. É exatamente o erro que você não deve cometer — e é por isso que a notícia desta segunda-feira importa mais pelo sintoma do que pela manchete.

A Anvisa confirmou que apura 13 notificações de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica — NOIANA, na sigla em português, NAION em inglês — em pessoas que usam agonistas de GLP-1, as famosas canetas emagrecedoras. Doze envolvem semaglutida e uma, tirzepatida. A agência fez questão de frisar, em nota: "A presença do medicamento e do evento em uma notificação não estabelece, de forma definitiva, que o medicamento tenha causado a neuropatia ou a perda de visão".

Um AVC no nervo do olho

O nervo óptico é o cabo que leva a imagem do olho ao cérebro. Na NOIANA, os vasinhos que irrigam a cabeça desse cabo — o disco óptico, aquele círculo amarelado da foto acima — deixam de mandar sangue suficiente. Parte das fibras morre. O resultado é uma perda súbita e indolor da visão, geralmente num olho só, muitas vezes percebida ao acordar. Pode melhorar um pouco; frequentemente, não volta.

É uma doença rara e, antes de qualquer caneta, já tinha seus clientes preferenciais: gente acima dos 50, com diabetes, hipertensão, apneia do sono e um disco óptico anatomicamente apertado. Repare que é quase o retrato falado de quem recebe receita de semaglutida. Essa sobreposição é o nó de toda a discussão científica.

As 13 notificações e o que se sabe sobre o risco
• Ozempic: 5 · Wegovy: 3 · Wegovy FlexTouch: 2 · Rybelsus (oral): 2 · Mounjaro (tirzepatida): 1
• Junho de 2025: Anvisa emite alerta de farmacovigilância e manda incluir a NOIANA nas bulas de Ozempic, Rybelsus e Wegovy como reação muito rara
• Mesmo mês: a agência europeia (EMA) chega à mesma conclusão — até 1 caso em cada 10 mil usuários
• JAMA Ophthalmology (2024), cerca de 1.700 pacientes: risco 4,28 vezes maior em diabéticos e 7,64 vezes em pessoas com obesidade usando semaglutida
• Coorte dinamarquesa com 424.152 diabéticos tipo 2: risco em cinco anos cerca de duas vezes maior
• Novo Nordisk: ensaios com mais de 83 mil pacientes-ano sem aumento de incidência; mais de 58 milhões de pacientes-ano de uso no mercado
(Fontes: Anvisa, EMA, JAMA Ophthalmology, Veja Saúde, Exame)

Quatro vezes? Sete? Duas? Ou nenhuma?

A história começou em 2024, num estudo do Mass Eye and Ear, em Boston, publicado no JAMA Ophthalmology. Os pesquisadores olharam prontuários de uma clínica de neuro-oftalmologia e encontraram um risco 4,28 vezes maior de NOIANA entre diabéticos que usavam semaglutida e 7,64 vezes maior entre pessoas com obesidade. Números de manchete — tirados de um centro de referência, onde já chegam os casos de olho complicado, e com comorbidades que por si só aumentam o risco.

Depois vieram estudos maiores, com populações inteiras. Na Dinamarca, que registra tudo de todo mundo, uma coorte de mais de 424 mil diabéticos encontrou um risco cerca de duas vezes maior em cinco anos. Outros trabalhos acharam menos, ou nada. A Novo Nordisk diz que seus ensaios clínicos não mostram aumento. É o padrão clássico de efeito colateral raro: quanto maior e mais bem desenhado o estudo, menor o susto — mas o sinal não some.

Foi com esse conjunto na mesa que a EMA e a Anvisa decidiram, em junho de 2025, pôr o aviso na bula. "Muito rara" tem definição técnica: até 1 em cada 10 mil. Para comparar, a náusea — o efeito colateral que todo usuário conhece — aparece em mais de 1 em cada 10. Nos Estados Unidos, o tema voltou esta semana porque pacientes processaram a fabricante, segundo o Wall Street Journal.

Por que 13 notificações dizem pouco — e muito

Notificação não é caso confirmado, e treze não é taxa. O sistema de farmacovigilância funciona como detector de fumaça: apita quando alguém — médico, paciente, farmacêutico — liga uma coisa à outra e se dá ao trabalho de avisar. Não diz quantas pessoas usam o remédio nem quantas teriam NOIANA de qualquer jeito. E a subnotificação no Brasil é crônica: o número real de eventos é, quase certamente, maior que o notificado.

O que torna o alerta relevante é a escala que vem aí. O mercado brasileiro já tem 25 canetas registradas, o preço caiu 70% com o fim da patente, e o ministro da Saúde falou esta semana em levar o remédio para "milhões" no SUS, a um custo de R$ 1,5 bilhão por ano. Um evento de 1 em 10 mil, multiplicado por milhões de usuários, deixa de ser curiosidade de congresso e vira centenas de olhos. Some a isso a caneta comprada em rede social, a tirzepatida vendida em pó na internet e o manipulado irregular que a Anvisa vive apreendendo — sem médico, sem bula e sem ninguém para notificar nada.

O que fazer, se você usa a caneta

Não pare por conta própria. Para quem tem diabetes ou obesidade com complicações, o benefício cardiovascular e metabólico está bem documentado e é muito maior que um risco de 1 em 10 mil. A conversa é com o médico, não com a manchete.

Perda súbita de visão é emergência. Se você acordar enxergando mal de um olho, com uma sombra ou metade do campo apagada, procure um pronto-socorro de oftalmologia no mesmo dia e diga que usa semaglutida ou tirzepatida. O mesmo sintoma pode ser descolamento de retina, oclusão de artéria ou AVC — e aí cada hora conta.

Conte ao médico se você tem fatores de risco: apneia do sono, hipertensão mal controlada, NOIANA prévia em um dos olhos. E, se algo acontecer, notifique: o sistema VigiMed, da Anvisa, aceita relato do próprio paciente. É esse tipo de relato que transformou suspeita em bula.

A caneta que emagrece o Brasil tem um efeito colateral raro no olho. Raro não é zero — e o olho não avisa duas vezes.

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