Crohn e retocolite quintuplicaram no SUS em 13 anos — e ninguém sabe o que houve em 2018
Estudo com 337.539 pacientes do SUS mostra que a prevalência das doenças inflamatórias intestinais saltou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025. A projeção para 2035 é de 264. O diagnóstico ainda demora de três a quatro anos.
Você tem diarreia há semanas. Depois melhora, depois volta. Emagreceu sem fazer dieta. Um dia aparece sangue no vaso. O clínico fala em virose, depois em intestino irritável, depois em hemorroida, depois em estresse. E assim se passam meses — às vezes anos — até alguém pedir uma colonoscopia.
Essa novela tem cada vez mais protagonistas no Brasil. Um levantamento apresentado nesta semana no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, em Balneário Camboriú (SC), mostra que o número de brasileiros tratados no SUS com doença de Crohn ou retocolite ulcerativa — as duas principais doenças inflamatórias intestinais, as DII — ficou mais de cinco vezes maior em 13 anos.
O estudo é de Abel Quaresma, da Unoesc, e Paulo Kotze, da PUC-PR, ambos da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, com pesquisadores da Universidade de Calgary (Canadá), da USP e da Unicamp. Foi bancado pelos próprios autores, sem dinheiro da indústria farmacêutica — detalhe raro o bastante para merecer registro.
De doença rara a condição de massa
Os pesquisadores vasculharam os registros do SUS de 2012 a 2025 e encontraram 337.539 pacientes. É mais gente do que a população inteira de Petrópolis, na serra fluminense. Em 2012, eram 30 pessoas com DII para cada 100 mil habitantes. Em 2025, 158.
"Estamos deixando de tratar de uma doença relativamente rara para lidar com uma condição crônica de peso crescente", resumiu Quaresma. Traduzindo: o que antes era caso de ambulatório especializado em capital virou assunto de política pública.
E não é só a soma de gente antiga acumulando no sistema. Os casos novos também subiram: de 9,35 para 12,34 diagnósticos por 100 mil habitantes a cada ano. A curva, que vinha subindo devagar, deu um tranco a partir de 2018. Por quê? "É um estudo que levanta mais perguntas do que respostas. Não sabemos o que aconteceu em 2018", admitiu o pesquisador. Honestidade científica em estado puro — e um convite para quem tiver dados.
• Pacientes identificados: 337.539
• Prevalência: de 30 para 158 por 100 mil habitantes (5,3 vezes)
• Casos novos por ano: de 9,35 para 12,34 por 100 mil
• Projeção para 2035: 264 por 100 mil (+67%) e 22,7 casos novos por 100 mil ao ano, nível de algumas regiões da Europa
• Estados com maior prevalência: São Paulo (278), Paraná (251) e Santa Catarina (204) por 100 mil
• Retocolite por Crohn: de 1,5 para 1 em 2012 a 2,1 para 1 em 2025
• Atraso médio no diagnóstico: 3 a 4 anos
• Biológicos para casos graves: até R$ 500 mil por ano por paciente
O mapa que também mede o acesso
São Paulo, Paraná e Santa Catarina lideram o ranking. Norte e Nordeste aparecem com índices bem menores — e os próprios autores avisam que isso tem mais cara de subnotificação e dificuldade de acesso do que de intestino mais saudável.
Faz sentido. Para entrar na estatística, o paciente precisa de colonoscopia, biópsia e um especialista que feche o diagnóstico. Onde a fila da colonoscopia se mede em meses e o gastroenterologista mais próximo fica a 300 quilômetros, a doença existe do mesmo jeito — só não aparece na planilha. Ou seja: o número real do Brasil, provavelmente, é maior que 158.
Por que o intestino do brasileiro está inflamando
As DII são doenças em que o sistema imune ataca a parede do próprio intestino. No Crohn, a inflamação pode aparecer em qualquer ponto do tubo digestivo e atravessa a parede inteira. Na retocolite, ela fica restrita ao intestino grosso e à camada mais superficial. Em ambas, o resultado é diarreia persistente, dor, sangue nas fezes, perda de peso e crises que vão e voltam.
A genética explica menos do que se imagina: só cerca de 30% dos pacientes têm alterações genéticas associadas. O resto é ambiente. E o padrão mundial é conhecido: as DII explodiram primeiro na Europa e na América do Norte e agora avançam nos países que se urbanizaram e "ocidentalizaram" a mesa — Brasil incluído.
Os pesquisadores listam os suspeitos de sempre — ultraprocessados cheios de aditivos, conservantes, corantes e espessantes — e acrescentam dois bem brasileiros: a exposição a agrotóxicos, num país que está entre os maiores consumidores do mundo, e a fumaça das queimadas de cana. Quaresma escolheu uma imagem de padaria para explicar: "Vinte anos atrás, você comprava um pão na padaria e, quatro ou cinco dias depois, ele mofava. Hoje em dia compra-se um pão de forma, ele fica três meses pronto". O que conserva o pão por três meses passa, depois, pelo seu intestino.
Vale a ressalva: associação não é sentença. Parte do salto pode ser mérito — mais colonoscopias, médicos mais atentos, mais gente chegando ao diagnóstico. O estudo não separa uma coisa da outra. Mas diagnóstico melhor não explica, sozinho, uma multiplicação por cinco.
A conta que vem aí
DII não tem cura. Tem controle — com anti-inflamatórios, imunossupressores e, nos casos graves, os biológicos, que podem custar até R$ 500 mil por ano por paciente. E mesmo assim cerca de 30% não respondem bem aos tratamentos disponíveis. No Crohn, metade dos pacientes vai precisar de ao menos uma cirurgia na vida, porque a inflamação repetida deixa cicatriz, a cicatriz estreita o intestino e o intestino entope.
Agora faça as contas: uma doença cara, crônica, que atinge gente jovem e em idade produtiva, projetada para crescer mais 67% em uma década. Quem vai pagar é o SUS — que já é quem trata esses 337 mil. "O que parecia uma tendência se consolidou como um fenômeno epidemiológico que as políticas públicas de saúde precisam levar em conta", disse Quaresma. É o jeito educado de dizer que o planejamento está atrasado.
O que fazer na prática
Diarreia que dura mais de quatro semanas não é virose. Principalmente se vier com sangue, perda de peso sem explicação, dor abdominal recorrente, acordar à noite para ir ao banheiro ou febre baixa. Esse conjunto pede investigação, não mais um antidiarreico.
Peça a colonoscopia pelo nome. O atraso médio de três a quatro anos no diagnóstico é, em boa parte, tempo perdido entre consultas que tratam o sintoma e não procuram a causa. Nesse intervalo, a inflamação vai fazendo estrago silencioso — e no Crohn estrago vira cirurgia.
Se você já tem o diagnóstico, não abandone o tratamento quando a crise passa. A fase calma é justamente o que o remédio está comprando. E mantenha o acompanhamento com especialista: é ele quem decide a hora de subir de degrau no tratamento, antes que o intestino decida sozinho.
O intestino brasileiro está mandando um recado há 13 anos, e o volume só aumentou. Os médicos ainda não sabem direito o que aconteceu em 2018. Mas já sabem o que vai acontecer em 2035 se ninguém fizer nada.
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