A cirurgia de tireoide tirou um hormônio — agora a Anvisa aprovou a reposição
A Anvisa registrou o Yorvipath (palopegteriparatida), primeira reposição de longa duração do paratormônio para adultos com hipoparatireoidismo crônico. No estudo principal, 79% dos pacientes normalizaram o cálcio e largaram os comprimidos. Preço e SUS ainda estão em aberto.
Você tira a tireoide — por um nódulo, um câncer, um bócio — e a cirurgia dá certo. O tumor saiu, a cicatriz fecha, a vida segue. Só que, dias depois, a ponta dos dedos começa a formigar. A boca fica dormente. A mão trava numa cãibra esquisita, em forma de garra.
Não é a tireoide. São as paratireoides: quatro glândulas do tamanho de um grão de lentilha, grudadas atrás da tireoide, que ninguém lembra que existem até o dia em que saem junto com ela — ou ficam sem sangue durante a cirurgia. São elas que fabricam o paratormônio, o PTH, o hormônio que mantém o cálcio do sangue no lugar.
Nesta quarta-feira, 23 de setembro, a Anvisa publicou o registro do Yorvipath, nome comercial da palopegteriparatida, para adultos com hipoparatireoidismo crônico. Pela Resolução RE nº 3.645, de 17 de setembro, o Brasil passa a ter um medicamento que faz o que a glândula perdida fazia — em vez de apenas remendar o estrago.
O remendo de décadas
O tratamento padrão do hipoparatireoidismo é, na essência, o mesmo há décadas: cálcio em comprimido e calcitriol, a forma ativa da vitamina D, várias vezes ao dia. Funciona como tapar goteira com balde. Você repõe o cálcio que falta, mas não repõe o hormônio que dizia ao corpo onde colocar esse cálcio.
E o PTH faz muita coisa. Ele manda o rim segurar cálcio e jogar fora fósforo, e ativa a vitamina D. Sem ele, o cálcio que você engole vai para o sangue, mas o rim não segura — e despeja na urina. Resultado: o paciente vive entre dois precipícios. Pouco cálcio, e vem formigamento, cãibra, até convulsão. Cálcio demais na urina por anos, e vêm pedra no rim, calcificação do rim e perda de função renal.
No estudo que levou à aprovação, os pacientes chegavam tomando em média 6,7 comprimidos por dia. Imagine a rotina: despertador para o cálcio, outro para o calcitriol, exame de sangue a cada poucas semanas, pronto-socorro quando a conta desanda.
Como a palopegteriparatida funciona
Repor PTH não é ideia nova. O problema é que o hormônio natural dura pouco no sangue: sobe e desce em poucas horas, e o corpo precisa de nível constante. A sacada do Yorvipath é química. A molécula ativa — o PTH(1-34), o pedaço do hormônio que faz o trabalho — vem presa a um carregador que a libera devagar.
O resultado, segundo a Anvisa, é uma exposição contínua e estável por até 24 horas, dentro da faixa fisiológica, com uma injeção subcutânea por dia, numa caneta parecida com as de insulina. Em vez de montanha-russa, platô. É o mais perto que a farmacologia chegou, até agora, de devolver a glândula.
• Estudo de fase 3, 84 adultos randomizados na América do Norte e na Europa; 85% tinham hipoparatireoidismo pós-cirúrgico
• Em 26 semanas, 79% do grupo tratado atingiram o objetivo principal — cálcio normal sem calcitriol e sem doses terapêuticas de cálcio — contra 5% no placebo
• 93% ficaram totalmente livres do tratamento convencional
• Comprimidos por dia: de 6,7 para 0,5
• Cálcio na urina de 24 horas: de 392 para 220 mg/dia
• Após três anos, entre os que continuaram: 96% independentes da terapia convencional e 88% com cálcio normal
• Aprovado pela FDA em agosto de 2024; registro no Brasil publicado em 23 de setembro de 2026
Os números — e o que eles não dizem
Os resultados do estudo PaTHway, publicados no Journal of Bone and Mineral Research, são dos que fazem endocrinologista levantar a sobrancelha. No grupo que recebeu o remédio, 48 de 61 pacientes atingiram o objetivo principal; no placebo, 1 de 21. O cálcio que vazava pela urina caiu quase pela metade, e 61% chegaram a valores normais — justamente o que protege o rim a longo prazo.
Os efeitos adversos mais comuns foram reação no local da injeção, dor de cabeça e, em parte dos pacientes, cálcio alto no sangue enquanto a dose era ajustada. Ninguém abandonou o estudo por efeito colateral do remédio.
Agora, a parte honesta. Foram 84 pacientes, quase todos brancos, acompanhados por meses e depois por três anos. É o tamanho possível para uma doença rara, mas não é o tamanho que responde tudo. E o estudo mediu cálcio e comprimidos, não quantos rins foram salvos em vinte anos — essa conta ainda vai ser feita no mundo real.
Registro não é acesso
Aqui mora o velho abismo brasileiro. Registro na Anvisa significa que o remédio pode ser vendido no país. Não significa que tem preço, nem que está na farmácia, nem que o SUS paga. O próximo passo é a CMED definir o preço máximo, e só depois a empresa decide quando lança. Para chegar ao SUS, o medicamento precisa passar pela Conitec — etapa que ainda não tem data.
Nos Estados Unidos, o tratamento custa valores de terapia para doença rara. É razoável esperar algo parecido aqui. Ou seja: no curto prazo, quem depende do sistema público continua no cálcio com calcitriol, que o SUS fornece pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, conforme o protocolo do hipoparatireoidismo (Portaria SAS/MS nº 450, de 2016). O remendo segue sendo o tratamento de quem não pode pagar pelo conserto.
O que fazer na prática
Se você vai operar a tireoide, pergunte ao cirurgião quantas tireoidectomias ele faz por ano e como ele preserva as paratireoides. A maioria dos casos de hipoparatireoidismo é consequência da cirurgia, e a experiência do cirurgião pesa muito no risco. Pedir dosagem de cálcio e PTH logo depois da operação também é padrão — cobre se não fizerem.
Se você já tem hipoparatireoidismo, não abandone o cálcio e o calcitriol esperando o remédio novo. Converse com o endocrinologista sobre se você seria candidato: quem vive com cálcio instável, muitos comprimidos por dia ou cálcio alto na urina é o perfil que mais tende a se beneficiar.
Peça exame de urina de 24 horas e avaliação do rim periodicamente. É o que mostra se o tratamento atual está protegendo — ou só maquiando o exame de sangue.
Durante décadas, quem perdeu as paratireoides aprendeu a viver de comprimido em comprimido, com o rim pagando a conta em silêncio. O hormônio que faltava finalmente tem registro no Brasil. Agora falta a parte mais difícil: preço que caiba no bolso de alguém.
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