Apendicite quase dobrou nos planos de saúde — e a pista está num código
Estudo do IESS com dados da ANS mostra que as internações por apendicite aguda nos planos saltaram de 27,7 mil em 2016 para 51,1 mil em 2025, alta de 84,4%, enquanto o número de beneficiários cresceu só 9,2%. Quase todo o salto de 2025 caiu num único código da CID — o da apendicite "sem outra especificação".
Começa com um incômodo perto do umbigo, que você atribui ao almoço. Algumas horas depois, a dor migra para o lado direito da barriga, embaixo, e fica. Andar dói, tossir dói, o carro passando no quebra-molas dói. Se você já viveu isso, sabe como termina: pronto-socorro, ultrassom, centro cirúrgico e três furinhos na barriga.
Pois esse roteiro ficou bem mais comum entre quem tem plano de saúde. O Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) publicou no fim de setembro o Texto para Discussão nº 124, que analisou dez anos de microdados hospitalares da ANS. As internações registradas por apendicite aguda passaram de 27,7 mil em 2016 para 51,1 mil em 2025 — alta de 84,4%. No mesmo período, o número de beneficiários cresceu só 9,2%. Não foi a carteira de clientes que inchou. Foi a conta.
O ano em que a curva deu um pulo
Durante quase uma década, o número andou de lado, com uma queda na pandemia — em 2020, com todo mundo evitando hospital, as internações caíram 11,1%. Entre 2022 e 2024, estabilidade. E aí veio 2025: de 39,5 mil para 51,1 mil internações em um único ano, salto de 29,3%, o maior valor da série.
Medida pela régua certa — internações por 100 mil beneficiários — a frequência subiu de 57,6 para 97,2. Traduzindo: se em 2016 de cada 100 mil pessoas com plano umas 58 foram internadas por apendicite, em 2025 foram 97. Quase o dobro de gente na maca, com a mesma quantidade de apêndices por pessoa.
• Internações registradas: 27,7 mil (2016) → 51,1 mil (2025), alta de 84,4%
• Só entre 2024 e 2025: +29,3% — e 94,5% desse aumento veio do código K35.9
• Frequência: 57,6 → 97,2 internações por 100 mil beneficiários
• Faixa mais atingida em 2025: 15 a 19 anos, com 156,2 por 100 mil
• Maior crescimento: 60 a 69 anos, +144% desde 2016
• 82,6% chegaram como urgência ou emergência; permanência mediana de 1 dia
• Videolaparoscopia em 78,8% das cirurgias com técnica identificada; despesa mediana de R$ 5,3 mil
• Acima de 80 anos: 18,1% foram para a UTI, contra 1,2% no geral
(Fonte: IESS, TD nº 124/2026, com microdados de Procedimentos Hospitalares da ANS)
O mistério do K35.9
Aqui está a parte que o próprio estudo trata como achado principal — e que vale mais do que a manchete. Toda internação é registrada com um código da CID-10. A apendicite tem quatro: K35.0 (com peritonite generalizada), K35.1 (com abscesso), K35 (genérico) e K35.9, a apendicite aguda "sem outra especificação" — o "outros" da gaveta de diagnósticos.
Pois foi a gaveta do "outros" que transbordou. Os registros em K35.9 cresceram 122,9% em dez anos e responderam por três quartos de todo o crescimento. Em 2025, o salto foi de 21 mil para 32 mil: dos cerca de 11,6 mil registros a mais no ano, 11 mil foram K35.9. Hoje ele é 62,6% de todas as internações por apendicite nos planos.
Por que isso importa? Porque quando um único código explica quase todo o aumento, existem duas leituras possíveis. Uma é que há mais apendicite de verdade. A outra é que mudou o jeito de preencher a guia — um sistema novo de faturamento, uma regra de auditoria, um hospital grande que passou a registrar diferente. O IESS, com honestidade rara, avisa: os números descrevem internações registradas, não a incidência da doença, e o K35.9 não permite saber se havia complicação. A recomendação é acompanhar as próximas atualizações da base. Em português de corredor: ninguém ainda sabe se a apendicite aumentou ou se a caneta mudou.
Quem está indo para a mesa de cirurgia
O retrato de 2025 confirma o que todo cirurgião de plantão sabe. A apendicite é doença de jovem: a maior frequência está entre 15 e 19 anos (156,2 por 100 mil), seguida dos 10 a 14 e dos 20 a 29. Homens ainda são maioria, mas as internações entre mulheres cresceram mais na década (98,4% contra 81%), e elas já são 47,7% dos casos.
O dado que deveria acender a luz amarela, porém, está na outra ponta. Entre os 60 e 69 anos, a frequência subiu 144% desde 2016 — o maior aumento de todas as faixas. E no idoso a apendicite é outro bicho: acima dos 80 anos, 18,1% das internações passaram pela UTI, a permanência média foi de 5,1 dias e a letalidade hospitalar chegou a 21,8 óbitos por mil internações. No conjunto de todas as idades, ela é de 0,8 por mil.
Isso tem explicação clínica conhecida. O idoso sente menos dor, tem menos febre e chega mais tarde, muitas vezes com o apêndice já perfurado. A dor que no adolescente é um alarme de incêndio, no avô é um cochicho.
A boa notícia: três furinhos e casa em um dia
Nem tudo no estudo é preocupante. A cirurgia por videolaparoscopia — câmera e pinças por pequenas incisões, como as da foto — respondeu por 78,8% das operações com técnica identificada; a cirurgia aberta, com o corte clássico, ficou em 20,5%. A permanência média foi de 2 dias, e a mediana, de um dia. A despesa mediana por internação ficou em torno de R$ 5,3 mil.
Para o plano, é uma conta que cresce. Para você, é a garantia de que a apendicite, tratada a tempo, virou procedimento de rotina. O problema nunca foi a cirurgia — foi a demora.
O que fazer quando a barriga dói
Preste atenção na migração da dor. Começar no meio da barriga e descer para o lado direito, embaixo, é o padrão clássico. Somam-se perda de apetite, náusea, febre baixa e dor que piora ao andar ou tossir.
Não tome laxante nem segure a dor com analgésico em casa esperando passar. O analgésico mascara o sinal; o laxante pode piorar o quadro. Apendicite não tem prevenção conhecida — o que salva é o tempo até o diagnóstico.
Desconfie em dobro no idoso e na criança pequena. Nos dois extremos da vida a doença costuma ser atípica: dor difusa, prostração, febre sem explicação. Se o seu pai de 75 anos "está estranho" com dor de barriga, leve ao pronto-socorro.
O apêndice continua sendo um tubinho de uns dez centímetros de que você nunca precisou. Mas a conta dele, nos planos de saúde, quase dobrou em dez anos — e ninguém sabe ainda se foi o apêndice ou a planilha.
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