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O câncer que tem vacina e exame de graça cresceu 13% — e o Sudeste puxa a conta

O câncer que tem vacina e exame de graça cresceu 13% — e o Sudeste puxa a conta

A nova Estimativa do INCA projeta 36.980 casos anuais de cânceres ginecológicos no Brasil entre 2026 e 2028. Só no Sudeste são 15.430 por ano, 11,5% a mais que no triênio anterior. O de colo do útero, que tem vacina no SUS desde 2014 e agora ganhou teste de DNA, subiu 13% e mata mais de 7.200 mulheres por ano. A região com mais médico por habitante é a que mais cresce — e isso não é a contradição que parece.

SaúdeCidade ·

Existe uma lista curta de cânceres que a medicina sabe evitar antes de existirem. Não detectar cedo: evitar. O de colo do útero é o exemplo mais bem acabado dela — tem uma vacina que impede a infecção que o causa, tem um exame que encontra a lesão anos antes de virar tumor, e as duas coisas são gratuitas no Brasil.

Pois é justamente esse que está crescendo. A nova Estimativa de Incidência de Câncer no Brasil, publicada pelo Instituto Nacional de Câncer para o triênio 2026-2028, projeta cerca de 19,3 mil casos novos por ano de câncer do colo do útero — 13% a mais que na estimativa anterior. Ele mata mais de 7,2 mil mulheres por ano no país. Cada uma dessas mortes é, em algum ponto da linha do tempo, uma falha evitável.

Os números que saíram esta semana

O recorte que circulou nos últimos dias é regional. Somados colo do útero, corpo do útero (endométrio) e ovário, o Sudeste deve registrar 15.430 casos novos por ano entre 2026 e 2028, contra 13.830 no triênio 2023-2025. É uma alta de 11,5% em três anos. No Brasil inteiro, esses três cânceres somam 36.980 casos anuais.

Eles estão dentro de um número maior: o INCA projeta 781 mil casos novos de câncer por ano no país neste triênio, ou 518 mil se você tirar os tumores de pele não melanoma, que são muitos e quase sempre curáveis. Entre as mulheres, a ordem de incidência é mama (30%), colorretal (10,5%), colo do útero (7,4%), pulmão (6,4%) e tireoide (5,1%).

Estimativa INCA 2026-2028, o que interessa aqui:

781 mil casos novos de câncer por ano no Brasil (518 mil sem pele não melanoma)
• Cânceres ginecológicos no país: 36.980 casos/ano
• Sudeste: 15.430/ano, contra 13.830 em 2023-2025 — alta de 11,5%
• Colo do útero: ~19,3 mil casos/ano (+13%) e mais de 7,2 mil mortes/ano
• É o 2º câncer mais incidente em mulheres no Norte e no Nordeste e o 5º no Sudeste — com mortalidade quase o dobro no Norte/Nordeste
• Vacina HPV no SUS: dose única, meninas e meninos de 9 a 14 anos; cobertura em torno de 82% das meninas e 67% dos meninos
• Meta assumida com a OMS para 2030: 90% das meninas vacinadas, 70% das mulheres rastreadas com teste molecular, 90% das lesões tratadas

(Fontes: INCA, Estimativa 2026-2028; Ministério da Saúde; OMS)

Por que crescer no Sudeste não é o mesmo que piorar

Antes da indignação, a aritmética. Estimativa do INCA não é contagem de doentes: é projeção estatística feita a partir dos registros de câncer de base populacional e da estrutura etária de cada região. Duas forças empurram esse número para cima sem que nada tenha piorado na semana passada.

A primeira é a idade. Câncer é, em boa medida, doença de gente que envelheceu — e o Sudeste é onde mais gente envelheceu. Mais mulheres com mais de 50 anos significam mais casos, mesmo com o risco individual estável.

A segunda é o registro. Região com mais serviço de patologia, mais oncologista e mais registro de câncer funcionando encontra e anota mais tumores. Parte do "aumento" do Sudeste é o Sudeste enxergando melhor. É por isso que a estatística tem uma armadilha cruel embutida: o lugar onde o câncer do colo do útero mais mata não é o que aparece na manchete. Ele é o segundo câncer mais incidente entre mulheres do Norte e do Nordeste, quinto no Sudeste, e a mortalidade lá é quase o dobro. Não porque o vírus seja diferente. Porque diagnóstico tardio e fila para tratar são diferentes.

Três doenças diferentes com um nome só

"Câncer ginecológico" junta três tumores que quase não têm nada em comum além do endereço.

O colo do útero é causado por infecção persistente por tipos de alto risco do HPV. Tem vacina e tem rastreio. É o único câncer relevante do mundo com meta oficial de eliminação.

O corpo do útero, ou endométrio, é o que mais silenciosamente vem subindo, e o principal fator de risco modificável dele é a obesidade — o tecido gorduroso produz estrogênio, e estrogênio sem contraposição estimula o endométrio, década após década. Seis em cada dez adultos brasileiros estão acima do peso. Faça a projeção sozinho. Em compensação, ele avisa: sangramento vaginal depois da menopausa não é normal em hipótese nenhuma e precisa ser investigado sempre, mesmo que seja pouco, mesmo que só uma vez.

O ovário é o traiçoeiro. Não tem exame de rastreamento populacional que funcione, tem componente hereditário relevante (mutações como BRCA1 e BRCA2) e dá sintomas que qualquer pessoa atribuiria a intestino preguiçoso: inchaço abdominal persistente, sensação de empanturramento, desconforto pélvico, vontade de urinar com frequência. A regra prática dos ginecologistas é a persistência — sintoma abdominal vago que não passa em três semanas e aparece quase todo dia merece ultrassom, não chá.

O SUS trocou o Papanicolau — e isso é grande

A novidade que muda o jogo do colo do útero não é um remédio: é um exame. O SUS está substituindo o preventivo tradicional (Papanicolau) pelo teste de DNA-HPV, que não procura a célula já alterada, e sim o vírus que causa a alteração. A sensibilidade para lesões de alto grau chega a cerca de 95%, contra 50% a 60% da citologia convencional.

Como ele erra menos, o intervalo pode ser maior: a cada cinco anos, em vez de três. A implantação começou por um município de cada estado selecionado e a meta é cobrir o país até dezembro de 2026, alcançando cerca de 7 milhões de mulheres de 25 a 64 anos por ano. É a mudança mais consequente no rastreamento feminino brasileiro em quatro décadas — e a maioria das mulheres ainda não ouviu falar dela.

Do outro lado da equação está a vacina, em dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos, com repescagem para adolescentes de 15 a 19 não vacinados e para grupos especiais até 45 anos. O Brasil está em torno de 82% de cobertura entre as meninas e 67% entre os meninos. A meta com a OMS é 90%. A diferença entre 82% e 90% parece pequena numa planilha; num vírus que circula por contato, ela é a diferença entre reduzir e interromper a transmissão.

O que fazer com isso na segunda-feira

Se você tem filha ou filho entre 9 e 14 anos, é uma picada só, na UBS, de graça, e ela previne um câncer que mata 7,2 mil mulheres por ano. Se ele ou ela passou dos 14 e não tomou, até os 19 ainda dá.

Se você tem entre 25 e 64 anos, o preventivo continua valendo — e vale perguntar na unidade se o município já usa o teste de DNA-HPV. Se você já passou da menopausa e sangrou, marque consulta esta semana; não é "resquício". Se está com inchaço abdominal que não passa há mais de três semanas, é ultrassom, não dieta.

O crescimento de 13% não é uma sentença sobre o vírus. É um retrato de quantas mulheres não foram vacinadas a tempo, não fizeram o exame ou o fizeram e não voltaram para o resultado. Nenhuma dessas três falhas é biológica. Todas são de agenda.

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