Um rim de porco segurou um paciente por nove meses até chegar o rim humano
Tim Andrews, 66 anos, recebeu um rim de porco geneticamente modificado, viveu com ele nove meses e depois recebeu um rim humano — o primeiro caso conhecido dessa sequência, publicado no The Lancet. Não é cura, não está à venda e não chega ao Brasil tão cedo. Mas mexe com a conta que 44 mil brasileiros fazem todo dia na fila.
Existem duas maneiras de ler a notícia de que um homem viveu nove meses com um rim de porco no corpo. A primeira é a manchete de ficção científica, com porco de laboratório e futuro logo ali. A segunda é a que interessa a quem está na fila: aquele rim de porco não substituiu nada. Ele comprou tempo.
E tempo é exatamente o que falta.
O que aconteceu
Tim Andrews tinha 66 anos, diabetes e hipertensão, que juntas já haviam destruído seus rins. Fazia diálise, tinha sofrido dois infartos, estava fraco demais para caminhar e sem apetite. Tipo sanguíneo raro — o que, na prática, empurra alguém para o fim de uma fila que já é longa. "Eu estava morrendo", ele conta.
Em 25/01/2025, no Mass General Brigham, em Boston, Andrews recebeu um rim de porco geneticamente modificado. Viveu com ele por nove meses. Em janeiro deste ano, depois que o órgão suíno precisou ser retirado, recebeu um rim humano de doador compatível. É o primeiro paciente de que se tem notícia a fazer esse caminho completo, e o caso saiu na quinta-feira passada no The Lancet.
O nome técnico do que ele fez é xenotransplante. O nome prático é ponte.
Por que "ponte" é a palavra certa
O medo que travava essa ideia era razoável: se o corpo do paciente aprender a brigar com o tecido de porco, não vai brigar depois com o tecido humano também? Seria um péssimo negócio — trocar alguns meses fora da diálise por uma rejeição garantida do órgão que realmente resolve.
O caso de Andrews, somado ao de outro paciente, sugere que não. "Aparentemente não muda em nada a forma como você reage ao tecido humano", diz Mike Curtis, presidente da eGenesis, a empresa de biotecnologia que produz os porcos e ajudou a financiar o estudo. É uma frase de CEO de empresa interessada, e vale lê-la com essa etiqueta colada. Mas ela vem acompanhada de uma confissão honesta: "quando começamos, não fazíamos ideia de que isso seria verdade".
Os porcos passam por várias edições genéticas. Algumas existem para evitar a rejeição hiperaguda, aquela em que o corpo destrói o órgão em minutos. Outras servem para inativar vírus que moram no genoma suíno — o pesadelo que ronda a área desde os anos 1990, o de criar uma zoonose nova dentro de um hospital.
O rim de Andrews foi retirado
Essa parte costuma sumir das manchetes, e é a mais importante. Andrews precisou ser internado várias vezes durante os nove meses. No fim, coágulos se formaram nos vasos do órgão e o danificaram. O rim de porco saiu, ele voltou para a diálise por um período curto e só então veio o rim humano.
Ou seja: a ponte funcionou como ponte. Não como destino. O próprio Leonardo V. Riella, autor principal do artigo e diretor associado do centro de tolerância em transplante do Mass General Brigham, coloca o prazo com clareza: o objetivo viável agora é servir de ponte, e "talvez, daqui a dez ou 15 anos", falar em alternativa tão boa quanto o rim humano.
Dez a quinze anos é o tipo de prazo que não ajuda ninguém que está na máquina três vezes por semana. Ajuda quem tem 40 anos hoje.
A conta brasileira
Nos Estados Unidos, cerca de 90 mil pessoas esperam por um rim e, em média, 11 morrem por dia na fila. No Brasil os números são de outra ordem de grandeza, e é bom saber que eles variam conforme a fonte: a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos fala em cerca de 38 mil pessoas na fila renal; levantamentos mais recentes citam mais de 44 mil. Em qualquer das contas, o rim é disparado o órgão mais esperado do país — algo em torno de 90% de toda a lista nacional.
Atrás desses números há outro, maior: perto de 180 mil brasileiros dependem de terapia renal substitutiva, a grande maioria em hemodiálise. O SUS fez mais de 6 mil transplantes de rim em 2024. Faça a divisão e você entende por que a palavra "ponte" acende os olhos de quem trabalha com isso.
Porque a fila não mata só por falta de órgão. Ela mata por desgaste. "A diálise desgasta tanto nossos pacientes que eles acabam ficando doentes demais para receber um transplante ou morrem enquanto esperam", resume Riella. Um paciente que chega em melhor estado à cirurgia é um paciente que sobrevive mais a ela. Se um órgão temporário tira alguém da máquina por seis, oito meses, ele não está só dando conforto: está mudando a chance de dar certo lá na frente.
E enquanto isso não chega
Vale dizer o óbvio que a matéria de xenotransplante sempre esconde: no Brasil, hoje, a fila encolhe por um caminho só, e ele não passa por porco nenhum. Passa pela família dizendo sim.
O Brasil bateu recorde de transplantes em 2025 e mesmo assim quase metade das famílias abordadas recusa a doação. A lei brasileira não vale a carteirinha de doador nem o que você escreveu no perfil: quem autoriza é a família, na hora, no pior dia da vida dela. Se ninguém em casa sabe o que você quer, a resposta padrão do susto é não.
Então a versão prática desta notícia é curta. Guarde o nome xenotransplante para daqui a uma década. Hoje, o que muda a fila de 44 mil pessoas é uma conversa de cinco minutos no jantar de domingo, dizendo em voz alta para quem mora com você o que você quer que aconteça. É de graça, não depende da Anvisa e não precisa esperar dez anos.
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