O SUS quase dobrou as cirurgias do coração em três anos — e, contra a doença que mais mata no Brasil, isso é uma corrida contra o relógio
Foram 326.569 cirurgias cardiovasculares em 2025, contra 180.293 em 2022 — um salto de 81%. No Distrito Federal, o número triplicou. Por trás da estatística, a briga com o inimigo que lidera o ranking de mortes do país há décadas.
A doença cardiovascular é a campeã silenciosa do Brasil. Não faz manchete todo dia, não tem mês de campanha com laço colorido tão famoso quanto o do câncer, mas é ela que encabeça o ranking de mortes há décadas — infarto, AVC, insuficiência cardíaca. Enquanto você lê este parágrafo, alguém no país está entrando numa fila para operar o coração. A pergunta que decide o desfecho é sempre a mesma: quanto tempo essa fila anda?
Por isso um número divulgado esta semana pelo Ministério da Saúde merece atenção. Em 2025, o SUS realizou 326.569 cirurgias cardiovasculares. Em 2022, foram 180.293. É um crescimento de 81,1% em três anos — mais de 146 mil procedimentos a mais por ano. Traduzindo: 146 mil corações que, em vez de esperar, foram para a mesa.
Por que velocidade é tudo no coração
No coração, a fila não é só desconforto — é risco. Uma válvula que precisa ser trocada, uma artéria entupida que pede ponte de safena, uma malformação que exige correção: cada mês de espera é o músculo trabalhando forçado, o quadro se deteriorando, a janela da cirurgia "tranquila" se fechando. O próprio Ministério resume assim a lógica do esforço: "acesso oportuno ao diagnóstico e ao tratamento das doenças cardiovasculares é fundamental para reduzir sequelas."
Sequela, aqui, tem nome concreto: o AVC que deixa o lado do corpo paralisado, o infarto que poderia ter sido evitado com uma ponte feita a tempo, a insuficiência cardíaca que transforma subir um lance de escada em provação. Operar mais cedo não é luxo de eficiência administrativa — é a diferença entre voltar a viver e viver pela metade.
Onde a conta cresceu mais
O avanço não foi truque de um estado grande puxando a média sozinho. Ele apareceu no mapa inteiro, inclusive nas pontas historicamente mais desassistidas:
• 326.569 cirurgias em 2025 (eram 180.293 em 2022)
• Crescimento de 81,1% — mais de 146 mil procedimentos a mais por ano
• Sudeste: +54 mil cirurgias; São Paulo liderou com +27.915
• Nordeste: Bahia e Paraíba somadas superaram +29 mil
• Sul: Paraná com +16.388 cirurgias
• Norte: Pará com +5.500
• Centro-Oeste: Goiás dobrou a produção; o Distrito Federal triplicou
O dado que emociona não é o de São Paulo — é esperado que o estado mais populoso opere mais. É o do Distrito Federal, que triplicou, e o de Goiás, que dobrou. Num país continental, a média nacional esconde o abismo: de nada adianta a cirurgia existir se o único hospital habilitado fica a 600 quilômetros e a fila é de meses. Quando o interior começa a operar, a geografia deixa de ser sentença.
O nome menos glamouroso do avanço
Estatística de crescimento não brota do chão. O salto está enquadrado no programa "Agora Tem Especialistas", que coordena filas, metas e monitoramento entre estados e municípios. Parece burocracia — e é. Mas é a burocracia certa. O coração não espera reunião, e uma fila mal gerida mata tanto quanto artéria entupida sem tratamento. Definir meta, medir e cobrar resultado é o que transforma verba anunciada em paciente operado.
O que o número ainda não conta
Antes de decretar vitória, o contraponto honesto. Crescer 81% é excelente — e não encerra a conversa. O Brasil ainda diagnostica doença cardíaca tarde, ainda tem regiões com fila longa, e a população está envelhecendo, o que empurra a demanda para cima todo ano. Operar mais é correr atrás do prejuízo; prevenir — controlar pressão, colesterol, diabetes, tabagismo — é sair na frente dele. As duas coisas precisam andar juntas, ou a mesa de cirurgia nunca vai dar conta.
Ainda assim, guarde o número. Num país onde a notícia sobre o SUS costuma ser o corredor lotado e o "não tem vaga", 326 mil cirurgias de coração num ano é o tipo de estatística que vale ser dita em voz alta — porque, atrás de cada uma, tem alguém cujo coração ganhou tempo. E, contra a doença que mais mata brasileiros, tempo é literalmente a vida.
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