Infarto deixa de ser "tipo 1, 2, 3, 4 ou 5" — e o coração da mulher ganha régua própria

Infarto deixa de ser "tipo 1, 2, 3, 4 ou 5" — e o coração da mulher ganha régua própria

Quatro das maiores sociedades de cardiologia do mundo publicaram a 5ª Definição Universal de Infarto do Miocárdio. A classificação numérica que confundia até médico virou três perguntas simples sobre a causa. A troponina, exame-chave do pronto-socorro, passa a ter valor de referência diferente para homens e mulheres. E a dissecção coronariana, que atinge mulheres jovens e grávidas, sai da nota de rodapé.

SaúdeCidade ·

Você chega ao pronto-socorro com dor no peito. Colhem seu sangue, medem uma proteína chamada troponina, o número vem alto e alguém diz: "infarto". Simples. Só que não é — e a comunidade cardiológica mundial acaba de admitir isso por escrito, numa das maiores revisões sobre o tema em décadas.

A 5ª Definição Universal de Infarto do Miocárdio foi publicada no European Heart Journal na semana passada e apresentada no domingo, 30 de agosto, no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia. Assinam o documento a própria ESC, o Colégio Americano de Cardiologia, a Associação Americana do Coração e a Federação Mundial do Coração — ou seja, todo mundo que manda em cardiologia no planeta. A edição anterior era de 2018.

Adeus, "tipo 4a"

Até esta semana, infarto tinha número. Tipo 1 era o clássico, causado por placa de gordura que rompe e entope a artéria. Tipo 2 era o "desequilíbrio" — o coração precisa de mais oxigênio do que recebe, por pressão muito baixa, arritmia, anemia grave. Tipo 3 era o infarto que matava antes de dar tempo de fazer exame. Tipos 4 e 5 eram os ligados a procedimentos, com o 4 subdividido em 4a, 4b e 4c, dependendo se o problema foi a angioplastia, o stent que entupiu ou a artéria que fechou de novo.

Era um sistema tão elegante quanto inútil na prática. Como admite a própria diretriz, ele "podia ser difícil de entender e nem sempre era usado da mesma maneira". Traduzindo: cada hospital carimbava um tipo diferente para o mesmo paciente, e a pesquisa que dependia desses dados saía com estatística de areia.

A nova classificação joga os números fora e faz uma única pergunta: o que causou o infarto? Três respostas possíveis. Primário: algo aconteceu na própria artéria coronária — placa que rompeu, espasmo, dissecção. Secundário: outra doença aguda desequilibrou a conta entre o oxigênio que o coração precisa e o que recebe. Relacionado a procedimento: qualquer infarto até 30 dias depois de uma intervenção no coração.

O que muda na 5ª Definição Universal de Infarto:

• Classificação numérica (tipos 1 a 5, com subtipos 4a/4b/4c) substituída por três causas: primário, secundário e relacionado a procedimento
• Troponina elevada não é sinônimo de infarto — pode subir em sepse, embolia pulmonar, miocardite, AVC e doença renal
• Valores de referência de troponina separados por sexo, porque mulheres têm níveis basais mais baixos
Dissecção coronariana espontânea, mais comum em mulheres jovens e no pós-parto, ganha destaque como causa de infarto primário
• Exames de imagem (angiografia, eco, tomografia, ressonância) passam a ser centrais para identificar a causa
• Assinam: ESC, ACC, AHA e Federação Mundial do Coração — publicado no European Heart Journal, agosto de 2026

(Fonte: 5ª Definição Universal de Infarto do Miocárdio / Sociedade Europeia de Cardiologia)

A troponina não é um teste de infarto — é um teste de coração machucado

Aqui está a parte que mais interessa para quem já ficou seis horas numa maca de emergência. A troponina é uma proteína que vive dentro das células do músculo cardíaco. Quando a célula morre, ela vaza para o sangue. Logo, troponina alta prova que células do coração morreram. O que ela não prova é por quê.

Sepse eleva troponina. Embolia pulmonar eleva. Insuficiência cardíaca, miocardite, AVC, rim que não filtra — todos elevam. A diretriz é clara: "não devemos considerar que todo paciente com troponina positiva teve infarto", nas palavras da cardiologista Ronnya Roriz, do Hospital Brasília. "Mas devemos, em todos eles, investigar e atuar nas causas."

Isso importa porque o erro corta para os dois lados. Rotular como infarto um paciente com troponina alta por sepse leva a antiagregante, anticoagulante e, às vezes, cateterismo desnecessário em alguém que precisava de antibiótico. E descartar infarto porque a troponina "subiu pouco" — especialmente em mulher — leva ao contrário: mandar para casa quem devia ficar.

Por que o coração da mulher precisava de régua própria

Mulheres têm, em média, níveis basais de troponina mais baixos que homens. Com um único valor de corte para todo mundo, o infarto feminino "pequeno" cabe embaixo da linha e passa despercebido. A nova definição manda usar valores de referência específicos por sexo — algo que a literatura vinha pedindo há pelo menos uma década e que os laboratórios, na maior parte do Brasil, ainda não fazem.

Some a isso o fato de que a mulher infarta diferente. Menos dor esmagadora no peito, mais falta de ar, náusea, dor nas costas ou na mandíbula, cansaço inexplicável. Some o fato de que o tipo de infarto mais comum em mulheres jovens — a dissecção coronariana espontânea, um "rasgo" na parede da artéria, frequente na gravidez e no pós-parto — era tratado como curiosidade de congresso. A diretriz reconhece, em texto, que essas formas "foram historicamente subestimadas, levando a um atendimento pior". É a primeira vez que o documento mais importante da cardiologia assume isso com todas as letras.

O lado B: imagem custa, e o SUS não tem

A diretriz coloca os exames de imagem — angiografia, ecocardiograma, tomografia e ressonância cardíaca — como ferramentas centrais para descobrir a causa do infarto, e não só para confirmá-lo. Faz todo sentido clínico. Faz pouco sentido logístico num país onde a fila para ressonância cardíaca no SUS pode ser contada em meses, quando o aparelho existe.

O cardiologista André Zimerman, do Hospital Moinhos de Vento, faz o alerta com elegância: será preciso "acompanhar como essa maior incorporação dos exames de imagem se traduzirá na prática", porque ela "pode impactar os fluxos de atendimento, o acesso aos exames e os custos do cuidado". Traduzindo: no Einstein a definição nova entra em vigor amanhã; na UPA do interior, o paciente continua sendo classificado pela troponina e pelo eletro, como sempre foi.

O que muda para você, na prática

Se você tem dor no peito, nada muda: vai para a emergência, e rápido. O que muda é o que você deve perguntar depois. Se disseram "infarto", pergunte qual a causa — placa, espasmo, dissecção, desequilíbrio por outra doença. O tratamento de cada um é diferente, e "infarto" sem sobrenome é um diagnóstico pela metade.

Se você é mulher, tem mais um dever de casa: pergunte se o laboratório usa valor de referência de troponina por sexo. A resposta, na maioria dos lugares, ainda será não. Mas a pergunta, feita muitas vezes, é o que faz o laboratório mudar.

Levou 26 anos e cinco edições para a cardiologia mundial escrever, num documento oficial, que o coração da mulher não é um coração de homem menor. O papel já aceitou. Falta o pronto-socorro.

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