Três mortes param a terapia que prometia "reiniciar" o sistema imunológico — e a ação da Novartis subiu 5,6% no mesmo dia

Três mortes param a terapia que prometia "reiniciar" o sistema imunológico — e a ação da Novartis subiu 5,6% no mesmo dia

A farmacêutica suíça suspendeu os testes do rap-cel, uma terapia CAR-T para doenças autoimunes, depois que três pacientes morreram de uma síndrome inflamatória conhecida. A Bristol Myers Squibb parou o estudo concorrente "por excesso de cautela". A pergunta que fica: um risco aceitável para quem tem câncer terminal é aceitável para quem tem lúpus?

SaúdeCidade ·

Imagine um tratamento em que os médicos retiram suas células de defesa, reprogramam-nas em laboratório para caçar um alvo específico, multiplicam-nas aos milhões e devolvem tudo para a sua veia. Foi assim que a terapia CAR-T virou, na última década, o maior avanço contra leucemias e linfomas que não respondiam a mais nada. E foi assim que a indústria decidiu que o próximo passo era usar a mesma arma contra lúpus, esclerose múltipla e miastenia.

Nesta terça-feira, 1º de setembro, a Novartis freou essa ideia. A empresa anunciou a suspensão temporária da inclusão e do tratamento de pacientes nos estudos do rapcabtagene autoleucel — o rap-cel, também conhecido pelo código YTB323 — em doenças autoimunes, após a morte de três pacientes. A notícia foi antecipada pelo site especializado Endpoints News na noite de segunda.

Do que os pacientes morreram

Segundo a Novartis, os três apresentaram reações graves de uma condição chamada síndrome hemofagocítica associada a células efetoras imunes, a IEC-HS. O nome é feio, mas a mecânica é conhecida: as células reprogramadas, uma vez dentro do corpo, disparam uma tempestade inflamatória que sai do controle, e o próprio sistema imunológico começa a devorar as células do sangue. É um efeito colateral documentado das terapias CAR-T em oncologia — e, como diz a própria empresa, "pode causar complicações potencialmente fatais".

Aqui está o ponto que os comunicados corporativos preferem não sublinhar: ninguém foi surpreendido pelo tipo de efeito. A surpresa é ele ter matado num grupo de pacientes que, sem o tratamento, não estariam morrendo.

O que se sabe até agora:

3 mortes em estudos do rap-cel (YTB323) para doenças autoimunes, por síndrome hemofagocítica (IEC-HS)
• Novartis suspendeu inclusão e tratamento de novos pacientes nesses estudos; os testes em câncer continuam
• Bristol Myers Squibb pausou voluntariamente o estudo concorrente do zola-cel "por excesso de cautela", após eventos inflamatórios "transitórios e reversíveis"
• Nenhuma terapia CAR-T está aprovada para doença autoimune em nenhum país
• Analistas projetavam receita de apenas US$ 648 milhões/ano para o rap-cel em 2032 (Bloomberg)
• No mesmo dia, ações da Novartis subiram até 5,6% em Zurique — maior alta em 18 meses — puxadas pelo sucesso de outro remédio, o remibrutinibe, para esclerose múltipla

(Fonte: Novartis, Bristol Myers Squibb, Endpoints News, Bloomberg)

A matemática do risco muda quando a doença não mata

Em oncologia, a CAR-T é aprovada para quem já tentou tudo. O paciente de linfoma que chega a ela tem, em geral, meses de vida. Nesse cenário, um tratamento que pode matar 2% ou 3% dos pacientes por toxicidade e curar 40% é uma aposta óbvia — para o paciente, para o médico e para o regulador.

Doença autoimune é outro jogo. Lúpus, miastenia, esclerose múltipla são crônicas, debilitantes, às vezes devastadoras — mas raramente matam a curto prazo, e existem dezenas de medicamentos razoavelmente seguros para controlá-las. Como resume a Folha, "o cálculo da relação entre benefícios e riscos pode ser diferente para doenças autoimunes que dificilmente levariam à morte do paciente". Um risco de morte que se aceita para quem tem meses de vida vira inaceitável para quem tem décadas.

A promessa da indústria era exatamente que a CAR-T conseguiria "reiniciar" o sistema imunológico — apagar as células B defeituosas e deixar o corpo reconstruir um sistema novo, sem a memória autoimune. Os primeiros relatos de casos, sobretudo da Alemanha, eram espetaculares: pacientes de lúpus grave em remissão sem remédio nenhum. Mas relato de caso é anedota bem contada. Estudo controlado é onde as anedotas vão morrer — às vezes com paciente junto.

O dia em que três mortes valeram 5,6% de alta

Existe um detalhe desta história que diz mais sobre a indústria farmacêutica do que qualquer editorial. No mesmo dia em que anunciou as mortes, a Novartis divulgou o sucesso de outro produto: o remibrutinibe, um comprimido para esclerose múltipla que, em dois estudos de fase avançada, reduziu recaídas e lesões cerebrais mais do que a teriflunomida, sem sinal de toxicidade no fígado. As ações subiram até 5,6% em Zurique, a maior alta em mais de 18 meses.

Não é cinismo, é aritmética. Os analistas projetavam para o rap-cel uma receita de US$ 648 milhões por ano em 2032 — dinheiro de padaria para uma empresa que fatura 50 bilhões. O remibrutinibe, por outro lado, é o sucessor de uma franquia bilionária, o Kesimpta. O mercado fez a conta em segundos: três mortes num programa pequeno, um sucesso num programa grande, saldo positivo. Para os investidores, foi um ótimo dia.

Por que isso importa no Brasil

O Brasil tem hoje pelo menos meia dúzia de centros — Hospital Israelita Albert Einstein, Hemocentro de Ribeirão Preto da USP, Hospital de Clínicas de Porto Alegre, entre outros — desenvolvendo ou aplicando CAR-T contra câncer, inclusive com produção nacional para baixar o custo, que na versão importada passa de R$ 2 milhões por paciente. E parte desses grupos já discutia, publicamente, estender a técnica para lúpus, uma doença que atinge cerca de 65 mil brasileiros, majoritariamente mulheres jovens e negras.

O freio da Novartis e da Bristol não encerra essa discussão — mas a coloca no lugar certo. Se a maior farmacêutica da Suíça, com comitês de segurança independentes e monitoramento de nível mundial, não conseguiu prever e controlar a síndrome a tempo em três pacientes, o argumento de "vamos fazer aqui, é mais barato" precisa ser acompanhado de um "e vamos monitorar como?". Terapia celular não é remédio: uma vez infundida, não dá para suspender a dose.

A ciência vai continuar. A Bristol já disse que quer "retomar a inclusão de pacientes o mais rápido possível", e a Novartis promete "aprimorar o monitoramento e identificar os efeitos colaterais mais cedo". Provavelmente vão conseguir. Mas vale lembrar, toda vez que um comunicado anunciar a próxima terapia que "reinicia" o sistema imunológico: reiniciar computador é seguro porque ele não morre no processo. Gente é diferente.

Compartilhar: