Neste sábado o país abre 20 vacinas de uma vez — e ninguém precisa de sintoma, receita ou fila de agendamento
O Dia D da Campanha de Multivacinação acontece em 22 de agosto em todo o Brasil. São 20 imunizantes do Calendário Nacional para menores de 15 anos, incluindo a pneumo 20 pela primeira vez. O Ministério da Saúde distribuiu 180 milhões de doses. Levar a caderneta é a única exigência real.
Existe uma pergunta que quase todo pai e mãe responde errado: "a caderneta de vacinação do seu filho está em dia?"
A resposta quase sempre é "acho que sim". E "acho que sim" é exatamente a expressão que sustenta os surtos de sarampo, coqueluche e caxumba que voltaram a aparecer nos últimos anos — depois de o Brasil ter passado décadas sendo caso de sucesso mundial em cobertura vacinal.
Neste sábado, 22 de agosto, acontece o Dia D da Campanha Nacional de Multivacinação. Crianças e adolescentes menores de 15 anos podem ir a qualquer UBS ou ponto de vacinação do país para atualizar a caderneta. A campanha começou no início do mês e segue até 1º de setembro — o Dia D é o sábado em que as unidades abrem justamente para quem não consegue ir em dia útil.
Vinte vacinas, um dia, nenhuma burocracia
São 20 doses do Calendário Nacional de Vacinação disponíveis, protegendo contra doenças que vão de meningite e tuberculose a cânceres associados ao HPV. O Ministério da Saúde informa ter distribuído 180 milhões de doses até 18 de agosto.
A novidade desta edição: pela primeira vez a campanha conta com a vacina pneumocócica 20-valente — a pneumo 20 —, incorporada ao calendário em junho. Ela amplia a proteção contra os sorotipos de pneumococo, a bactéria por trás de boa parte das pneumonias graves, otites e meningites bacterianas na infância.
• BCG, hepatite B, penta (DTP/Hib/HB), poliomielite (VIP), rotavírus
• Pneumocócica conjugada 10 e 20-valente (a pneumo 20 é novidade)
• Meningocócica C e meningocócica ACWY
• Influenza, covid-19, febre amarela
• Tríplice viral (sarampo, caxumba, rubéola), varicela, hepatite A
• DTP, dT, HPV4, dengue tetravalente
Quem: crianças e adolescentes menores de 15 anos
Onde: qualquer UBS ou ponto de vacinação do país
Leve: a caderneta de vacinação (e o cartão SUS, se tiver)
Por que "acho que está em dia" quase nunca está
O calendário infantil brasileiro é um dos mais completos do mundo — e essa é justamente a razão de ele ser tão fácil de furar.
São dezenas de doses distribuídas ao longo de quinze anos, com reforços em idades que ninguém memoriza. O bebê de zero a um ano vai à unidade quase todo mês e a cobertura é alta. Depois, a criança cresce, deixa de ter consulta de rotina, e o calendário passa a depender exclusivamente de alguém lembrar.
O buraco clássico está entre 4 e 15 anos. É a faixa dos reforços — DTP, poliomielite, tríplice viral segunda dose, varicela — e, principalmente, do HPV, a vacina que previne câncer de colo de útero, de pênis, de ânus e de orofaringe, e que é aplicada justamente na idade em que ninguém mais vai à UBS por outro motivo.
Não é descuido dos pais. É desenho: o sistema depende de uma iniciativa voluntária, sem gatilho nenhum, em uma faixa etária em que a criança não adoece com frequência.
O Dia D existe exatamente para criar esse gatilho.
O sarampo já mostrou o que acontece quando a cobertura cai
Se você acha que isso é conversa de campanha, olhe o que está acontecendo em São Paulo neste momento.
Só entre 3 e 14 de agosto, foram aplicadas 529,8 mil doses de tríplice viral em uma estratégia especial concentrada em três municípios — Guarulhos, São Bernardo do Campo e São Paulo capital —, ampliada para pessoas de 6 meses a 59 anos. Mais de 795 mil doses contra o sarampo foram aplicadas no estado.
Ninguém monta operação desse tamanho por precaução abstrata. Monta porque o sarampo — uma doença que o Brasil já havia eliminado — voltou a circular, e porque ele é uma das doenças mais contagiosas conhecidas: um caso infecta de 12 a 18 pessoas suscetíveis. Não existe "cobertura razoável" contra sarampo. Existe cobertura alta ou existe surto.
Chama atenção, nesse mesmo dado, que apenas 87,2 mil doses — 16,5% do total — foram para crianças de 5 a 11 anos. A operação teve que correr atrás de adultos porque a proteção da infância havia falhado anos antes.
Como aproveitar o sábado sem perder a viagem
Leve a caderneta. Sem ela, a equipe fica sem saber o que falta e tende a ser conservadora. Perdeu a caderneta? Vá mesmo assim — a UBS onde a criança foi vacinada tem o registro, e boa parte do histórico está no sistema.
Não precisa jejum, receita nem agendamento. Multivacinação é demanda espontânea: você chega e é atendido.
Resfriado leve não impede. Coriza e tosse sem febre não contraindicam vacina — essa é uma das crenças que mais adia dose no Brasil. Febre alta, sim, adia.
Várias vacinas no mesmo dia é seguro. O sistema imunológico de uma criança lida com milhares de antígenos por dia só ao colocar a mão na boca. Três injeções no mesmo braço não o sobrecarregam — apenas evitam três viagens.
Adolescente também conta. Menor de 15 anos inclui aquele filho de 13 que não pisa numa UBS desde a última consulta de rotina. É a idade do HPV e dos reforços que mais faltam.
A vacina mais barata do sistema
Vale lembrar por que isso importa além da caderneta.
Uma dose de tríplice viral custa poucos reais ao SUS. Uma internação por sarampo com complicação pulmonar custa alguns milhares. Uma encefalite pós-sarampo custa uma vida inteira de sequela. A conta nunca foi difícil de fazer — o problema é que ela só aparece depois.
Vacina é o único procedimento de saúde em que o sucesso é invisível. Quando funciona, não acontece nada — e "não acontecer nada" é péssimo material de campanha.
Sábado, com a caderneta na mão — confira o horário da unidade mais próxima, que varia de município para município. É a coisa mais barata que você vai fazer pelo seu filho este ano.
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