A primeira vacina de RNA mensageiro feita no Brasil vai para teste em 2027 — em 90 pessoas, contra uma doença que já tem vacina

A primeira vacina de RNA mensageiro feita no Brasil vai para teste em 2027 — em 90 pessoas, contra uma doença que já tem vacina

A Anvisa autorizou a Fiocruz a testar em humanos a vacina de RNAm contra covid-19 desenvolvida em Bio-Manguinhos. É a primeira do tipo produzida no país e a primeira, entre os parceiros do programa de transferência de tecnologia da OMS, a chegar a estudo clínico. O recrutamento começa no primeiro trimestre de 2027, com 90 adultos no Rio. A notícia não é a vacina. É a fábrica.

SaúdeCidade ·

Em 2021, quando a vacina de RNA mensageiro da Pfizer chegou ao Brasil, ela vinha de avião, congelada a 70 graus negativos, com preço fechado em dólar e contrato sob sigilo. O Ministério da Saúde assinou a compra de 100 milhões de doses a US$ 10 cada — US$ 1 bilhão — e depois mais 50 milhões. Cinco anos depois, as doses de covid que o SUS distribui continuam vindo de fora: só nos primeiros meses de 2026 foram 6,3 milhões, incluindo um lote de 2,2 milhões enviado aos estados em abril.

Nesta semana, a Anvisa autorizou o primeiro passo para mudar a origem desse frasco. A agência liberou, no dia 20 de agosto, o estudo clínico da vacina de RNAm contra covid-19 desenvolvida integralmente pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos, o Bio-Manguinhos da Fiocruz, no Rio de Janeiro. É a primeira vacina com essa tecnologia produzida no Brasil a receber sinal verde para ser testada em gente.

Antes de comemorar, vale ler a letra pequena. Porque o cronograma tem uma informação que a manchete escondeu: o teste começa no ano que vem, é de Fase 1, envolve 90 pessoas e mira uma doença para a qual você já pode tomar vacina hoje no posto. Nada disso é defeito. Mas exige entender o que, exatamente, está sendo comemorado.

O que a Anvisa autorizou, sem o burocratês

Um ensaio clínico de Fase 1 responde a uma pergunta só: isso é seguro em humanos e provoca resposta imunológica? Não mede se a vacina previne covid — isso é trabalho da Fase 3, com milhares de participantes, que vem depois. O estudo da Fiocruz vai incluir 90 adultos saudáveis, de 18 a 59 anos, que receberão o imunizante como dose de reforço, do jeito que o Programa Nacional de Imunizações já recomenda para a covid.

Os voluntários serão recrutados em dois centros no Rio de Janeiro: a Unidade de Ensaios Clínicos para Imunobiológicos e a Policlínica Lincoln de Freitas Filho. O recrutamento está previsto para o primeiro trimestre de 2027, ainda dependendo do Comitê de Ética em Pesquisa. A inclusão dos participantes deve levar seis meses, e cada um será acompanhado por mais seis. Ou seja: o primeiro resultado completo de Fase 1 aparece, na melhor hipótese, no fim de 2028. O protocolo está registrado no ClinicalTrials.gov sob o número NCT07640308 e é aberto — participantes e pesquisadores sabem o que está sendo aplicado.

Traduzindo: a vacina de covid da Fiocruz não vai estar no seu braço tão cedo. E, para ser franco, talvez nunca esteja — a covid de 2029 pode exigir outra formulação, ou a proteção das vacinas importadas atualizadas pode ser suficiente. O que a Anvisa autorizou não é um produto. É a prova de que uma linha de produção funciona.

A vacina, o estudo e o dinheiro:

• Autorização da Anvisa: 20 de agosto de 2026, divulgada em 2 de setembro
Fase 1, aberta, com 90 adultos saudáveis de 18 a 59 anos, como dose de reforço
• Centros: Unidade de Ensaios Clínicos para Imunobiológicos e Policlínica Lincoln de Freitas Filho, ambos no Rio de Janeiro
• Recrutamento a partir do 1º trimestre de 2027; seis meses de inclusão e mais seis de acompanhamento por voluntário
• Registro: NCT07640308 (ClinicalTrials.gov)
• Investimento do Ministério da Saúde em RNAm pelo Novo PAC Saúde: R$ 210 milhõesR$ 77 milhões para a Fiocruz, R$ 73 milhões para o Butantan e R$ 60 milhões para o Centro de Competência em Vacinas da UFMG
• Bio-Manguinhos é centro de referência regional em RNAm da OMS desde 2021; a planta piloto é a primeira da América Latina certificada em Boas Práticas de Fabricação
• Compras históricas da vacina importada: 100 milhões de doses a US$ 10 em 2021 e mais 50 milhões em 2022; em 2026, 6,3 milhões de doses distribuídas até abril

(Fontes: Anvisa, Fiocruz, Ministério da Saúde, Agência Brasil)

Por que a fábrica importa mais que o frasco

RNA mensageiro é uma tecnologia de plataforma. A vacina é, na essência, uma nanopartícula de gordura carregando uma instrução genética; o corpo lê a instrução, produz o pedaço do vírus e aprende a atacá-lo. Trocar de alvo significa trocar a instrução, não a fábrica. É a diferença entre uma gráfica e um livro: quem tem a gráfica imprime o que precisar.

Foi exatamente isso que faltou ao Brasil em 2020 e 2021. O país tinha Bio-Manguinhos e Butantan, dois dos maiores produtores públicos de vacina do mundo, e mesmo assim ficou meses na fila esperando insumo da Índia e da China para envasar vacina desenhada por outros. O RNAm, que virou o padrão da resposta rápida, simplesmente não existia aqui.

Desde 2021, Bio-Manguinhos é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como centro regional de referência em RNAm para a América Latina, dentro do programa de transferência de tecnologia que a OMS criou, junto com o Medicines Patent Pool, justamente para que a próxima pandemia não repita a fila. Segundo a Fiocruz, é o primeiro parceiro desse programa em todo o mundo a ter um produto aprovado para estudo clínico. A planta piloto recebeu certificação de Boas Práticas de Fabricação — a primeira da América Latina — e a instituição já depositou pedido de patente da plataforma.

"A consolidação dessa plataforma amplia a capacidade nacional de responder a emergências sanitárias, reduz a dependência de tecnologias externas e cria uma base para o desenvolvimento de novos produtos voltados a diferentes desafios do SUS", disse Mario Moreira, presidente da Fiocruz. O diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle, foi na mesma linha: "ter um estudo clínico desse porte, com tecnologia inovadora e feito por uma instituição pública, é uma demonstração concreta do compromisso do Brasil com a proteção à saúde e com o desenvolvimento da ciência".

O que vem depois da covid

Aqui está a parte que interessa de verdade. Patrícia Neves, que lidera o projeto de RNA em Bio-Manguinhos, deixou claro que a covid é a prova de conceito, não o destino: "o potencial é enorme. Teremos a primeira vacina para covid-19, mas já estamos com estudos em andamento para outras, contra leishmaniose e tuberculose". Ela também citou terapias contra o câncer como horizonte da mesma tecnologia.

Repare nos alvos. Leishmaniose e tuberculose não são doenças que interessam a empresa farmacêutica de Massachusetts. São doenças de país pobre, de periferia e de sertão, com mercado pequeno em dólar e enorme em gente. É o tipo de vacina que só sai do papel se alguém com dinheiro público e sem obrigação de dar lucro resolver fazer. É para isso que serve ter a gráfica.

O ministro Alexandre Padilha aproveitou para cutucar: "enquanto tem país que cortou o investimento em RNA mensageiro, o Brasil tem três plataformas, vem avançando". A referência é aos Estados Unidos, que em 2025 desmontaram parte do financiamento federal à tecnologia. Além da Fiocruz, o Butantan monta unidade de RNAm com foco inicial em covid e raiva, e a UFMG desenvolve candidatas contra dengue, malária, Chagas, leishmaniose visceral e influenza.

Os poréns, para não vender ilusão

Primeiro porém: os R$ 210 milhões do Novo PAC divididos em três instituições são dinheiro de fábrica-piloto, não de fábrica de escala. Produzir milhões de doses por mês, com controle de qualidade e cadeia de frio, é um problema industrial que a Fase 1 não resolve. Nem o Butantan nem Bio-Manguinhos divulgaram capacidade de produção prevista.

Segundo porém: velocidade. A Pfizer e a BioNTech foram do desenho da vacina à autorização de emergência em cerca de onze meses, em 2020 — com dezenas de bilhões de dólares, prioridade regulatória absoluta e uma pandemia servindo de Fase 3 em tempo real. A Fiocruz vai começar a Fase 1 em 2027 para uma doença endêmica, sem emergência. Cada fase seguinte vai custar mais, demorar mais e depender de orçamento que muda a cada Lei Orçamentária.

Terceiro porém, e o mais importante: o teste de uma plataforma de resposta rápida é a rapidez. A pergunta que importa não é "quando fica pronta a vacina de covid", e sim "se surgir um vírus novo em 2028, quantos meses Bio-Manguinhos leva para ter um candidato em Fase 1?". A resposta ainda não existe. O que existe, desde 20 de agosto, é o primeiro dado para começar a calcular.

Enquanto isso, no posto

Nada disso muda a sua rotina de vacinação. A vacina de covid disponível no SUS em 2026 continua sendo a importada, atualizada para as variantes recentes, e continua indicada como reforço para idosos, gestantes, imunossuprimidos, crianças pequenas e demais grupos prioritários do calendário. Se você está num desses grupos e a última dose foi há mais de um ano, a fila é a mesma de sempre — e a proteção não depende de bandeira no rótulo.

Levou cinco anos e R$ 77 milhões para o Brasil chegar ao ponto em que qualquer startup de biotecnologia de Boston já estava em 2020: uma vacina de RNAm autorizada para Fase 1. Não é pouco, para um país que em 2021 dependia de um avião pousar. Também não é chegada. É a primeira volta de uma corrida em que o adversário não é a covid — é o tempo até a próxima.

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