Largar o cigarro pela tela do celular: o programa do Incor que cortou o consumo pela metade sem ninguém sair de casa
Desde 2021, o Incor trata dependência de nicotina por videochamada, em grupo, com terapia cognitivo-comportamental. Um estudo com 154 pessoas mostrou queda de 50% no consumo de cigarros. E o melhor: parar de fumar é de graça no SUS desde 1986.
A cada hora que passa no Brasil, cerca de 20 pessoas morrem por causa do cigarro. Não é uma tragédia súbita, com manchete e comoção nacional — é uma conta silenciosa, gota a gota, que ninguém contabiliza no jantar. Câncer de pulmão, infarto, AVC, enfisema: o cigarro cobra a fatura devagar, e por isso é fácil ignorar o boleto enquanto ele ainda não venceu.
A boa notícia é que dá para rasgar esse boleto — e, cada vez mais, sem sair da poltrona de casa. O Instituto do Coração (Incor), do Hospital das Clínicas da USP, oferece desde maio de 2021 um programa de telemedicina para parar de fumar. E os números de quem passou por ele são bons o suficiente para tirar o assunto da categoria "promessa bonita".
Por que largar o cigarro é tão mais difícil do que parece
Se fosse só questão de força de vontade, ninguém fumaria. O problema é que a nicotina sequestra o sistema de recompensa do cérebro — aquele mesmo que te dá prazer ao comer, ao rir, ao abraçar alguém. "O cérebro se acostuma com aquele sistema de recompensa, de prazer", explica a Dra. Telma de Cássia dos Santos Nery. O fumante passa a associar o cigarro à alegria, ao alívio, ao intervalo do trabalho, ao cafezinho. Não é vício de um produto — é vício de um ritual costurado à vida inteira.
É por isso que "só parar" quase nunca funciona sozinho. O corpo pede a nicotina, mas a cabeça pede o gesto, a pausa, o companheiro dos momentos de estresse. Atacar só um lado é enxugar gelo. E é aí que entra a abordagem do Incor.
Como funciona o tratamento pela tela
O formato é engenhosamente simples. Grupos de 10 a 15 pessoas se encontram por videochamada em quatro sessões mensais, sempre às quartas-feiras. A técnica central é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) — que, em bom português, significa desmontar os gatilhos e reconstruir os hábitos, um de cada vez. Para quem prefere olho no olho, o atendimento presencial continua disponível. E há suporte técnico para quem não é craque em aplicativos, o que derruba a desculpa clássica do "não entendo dessas coisas".
O pulo do gato do formato em grupo é a companhia. Parar de fumar sozinho é solitário; parar junto de outras dez pessoas que estão na mesma luta, vendo o progresso e os tropeços umas das outras, cria uma rede de apoio que a força de vontade individual raramente sustenta.
• 9,3% da população brasileira ainda fuma
• Cerca de 20 pessoas morrem por hora no país por doenças ligadas ao cigarro
• Programa do Incor funciona por telemedicina desde maio de 2021, em grupos de 10 a 15 pessoas
• Estudo com 154 participantes (2021-2023) mostrou redução de 50% no consumo de cigarros
• A queda foi progressiva: 5% na 1ª sessão, 16% na 2ª, 18% na 3ª e mais 5% na 4ª
• O SUS trata tabagismo de graça desde 1986 — para qualquer pessoa que queira parar
Os números de quem tentou
Entre 2021 e 2023, um estudo acompanhou 154 participantes do programa. O resultado: uma redução de 50% no consumo de cigarros. E o mais interessante é a curva desse abandono — ele não vem de uma vez, num surto de heroísmo. Vem em degraus. Foram 5% de queda na primeira sessão, 16% na segunda, 18% na terceira e mais 5% na quarta.
Essa progressão diz muito. Parar de fumar não é um interruptor que se desliga; é uma escada que se desce um degrau por vez. Quem espera acordar amanhã "curado" costuma desistir na primeira recaída. Quem entende que a segunda e a terceira semana são onde a mágica realmente acontece tem muito mais chance de chegar ao fim.
E o melhor: você não precisa pagar por isso
Aqui vai o dado que muita gente não sabe e devia estar em outdoor: o SUS trata tabagismo de graça desde 1986. Não é novidade, não é piloto, não é benefício de plano premium. É direito antigo, disponível para qualquer pessoa que bata na porta de uma unidade de saúde dizendo "quero parar de fumar". Adesivos e gomas de nicotina, remédios, acompanhamento psicológico — tudo previsto, tudo público.
A telemedicina só derruba a última barreira que sobrava: a da distância e da agenda. Quem mora longe, quem não consegue faltar ao trabalho para ir a quatro consultas presenciais, quem tem vergonha de encarar a sala de espera — agora liga a câmera e participa da própria casa. É a mesma medicina de sempre, só que sem o obstáculo do deslocamento.
Vinte mortes por hora é um número que anestesia de tão grande. Mas ele é feito de uma pessoa por vez — e cada uma delas, em algum momento, teve a chance de virar o jogo. O tratamento existe, é gratuito e agora cabe na tela do seu celular. A única coisa que ele ainda não faz por você é o primeiro clique.
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