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O SUS vai tratar catarata e glaucoma na mesma cirurgia — e ainda economizar

O SUS vai tratar catarata e glaucoma na mesma cirurgia — e ainda economizar

A Portaria SCTIE/MS nº 57 incorpora duas técnicas que desentopem o sistema de drenagem do olho durante a própria operação de catarata. Vale para glaucoma de ângulo aberto inicial ou moderado, controlado com colírio. O Ministério tem até 180 dias — ou seja, até março de 2027 — para a cirurgia chegar à rede.

SaúdeCidade ·

Se você passou dos 60, tem uma boa chance de já ter ouvido as duas palavras no mesmo consultório: catarata e glaucoma. Uma embaça a vista aos poucos, como se alguém fosse passando vaselina na lente da câmera. A outra não embaça nada — vai apagando a visão pelas bordas, em silêncio, até o dia em que você percebe que esbarra em porta.

Até agora, no SUS, quem tinha as duas tratava uma de cada vez. Operava a catarata, voltava para a fila, e o glaucoma seguia no colírio — gotas uma a três vezes por dia, todos os dias, pelo resto da vida — até precisar de outra cirurgia.

Isso vai mudar. O Ministério da Saúde publicou no Diário Oficial de 17 de setembro a Portaria SCTIE/MS nº 57, de 14 de setembro, que incorpora ao SUS a cirurgia antiglaucomatosa feita durante a operação de catarata. Um centro cirúrgico, uma anestesia, uma recuperação.

Dois problemas, uma porta de entrada

A catarata é o cristalino — a lente natural do olho — ficando opaco. Não tem colírio que resolva: o tratamento é tirar a lente velha e pôr uma artificial. A técnica padrão chama-se facoemulsificação: o cirurgião faz uma incisão de poucos milímetros na córnea, entra com uma caneta de ultrassom que quebra o cristalino em pedacinhos e aspira tudo. Depois encaixa a lente nova, dobrada, pelo mesmo buraco.

O glaucoma é outra história. O olho produz um líquido o tempo todo, e esse líquido precisa sair por uma espécie de ralo no ângulo entre a íris e a córnea, chamado malha trabecular. No glaucoma primário de ângulo aberto — o tipo que responde por cerca de 60% dos diagnósticos no país, segundo a Conitec — o ralo está aberto, mas entupido. A pressão sobe e esmaga, devagar, o nervo óptico. E nervo óptico não se regenera.

A sacada da portaria é óbvia depois que alguém diz: se o cirurgião já está dentro do olho para trocar o cristalino, por que não aproveitar a viagem e desentupir o ralo?

O que a portaria garante
• Portaria SCTIE/MS nº 57, de 14 de setembro de 2026, publicada no DOU em 17 de setembro
• Cirurgia antiglaucomatosa por via angular com goniotomia excisional ou trabeculotomia transluminal
• Feita durante a facoemulsificação com implante de lente intraocular
• Para quem tem catarata e glaucoma primário de ângulo aberto com dano inicial ou moderado, controlado com colírio
• Prazo para chegar à rede: 180 dias — até março de 2027
• Economia estimada pela Conitec: R$ 22,4 milhões no primeiro ano, podendo chegar a R$ 93,2 milhões por ano em cinco anos

Como se desentope um olho

São duas técnicas, e o cirurgião escolhe uma. Na goniotomia excisional, ele usa um instrumento minúsculo para cortar e retirar uma faixa da malha trabecular entupida, pela mesma incisão da córnea. É, literalmente, arrancar a tela do ralo.

Na trabeculotomia transluminal, ele passa um microcateter ou um fio cirúrgico por dentro do canal natural de drenagem do olho — o canal de Schlemm, que dá a volta na córnea como um anel — e depois puxa, rasgando a parede interna do canal. O caminho de saída do líquido fica mais largo em boa parte da circunferência.

"Não existe uma técnica universalmente superior para todos os pacientes", disse à Folha o cirurgião ocular Álvaro Dantas, diretor médico do Hospital Ícone da Visão. A escolha depende da anatomia do olho, do tipo de glaucoma e da pressão que se quer alcançar. Traduzindo: não é para escolher pelo nome mais bonito.

Nenhuma das duas deixa implante dentro do olho, e aí mora a parte financeira da história.

A conta que fez o SUS dizer sim

Para esse mesmo perfil de paciente, o SUS já oferecia o iStent, um implante de drenagem do tamanho de um grão de arroz — menor, na verdade — que é encaixado na malha trabecular para abrir um bypass. Funciona. Mas é um dispositivo importado, pago por unidade.

O relatório da Conitec calculou que a goniotomia excisional custa cerca de R$ 18 mil a menos por ano de vida saudável ganho do que o iStent. No dialeto da avaliação de tecnologias, isso significa entregar o mesmo benefício, ou mais, gastando menos. A economia projetada é de R$ 22,4 milhões já no primeiro ano, subindo para até R$ 93,2 milhões anuais ao fim de cinco anos.

É raro. Na maioria das incorporações, o SUS paga mais caro para ter algo melhor. Aqui ele vai pagar menos para ter algo pelo menos igual — e ainda poupar o paciente de uma segunda cirurgia e de parte do colírio. Segundo o Ministério da Saúde, a abordagem combinada é menos invasiva, tem recuperação mais rápida e controla melhor a pressão do olho.

O prazo que ninguém cumpre direito

Agora vem a parte em que o otimismo precisa sentar. A lei dá 180 dias para uma tecnologia incorporada chegar à rede. Isso depende de a técnica entrar no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do glaucoma, ganhar código na tabela do SUS, ter valor definido e — detalhe nada pequeno — ter cirurgião treinado e instrumental comprado nos serviços que operam catarata.

O histórico não ajuda. Já vimos aqui incorporações aprovadas no papel que passaram mais de um ano esperando protocolo. E a catarata, uma das cirurgias eletivas mais feitas do SUS, tem fila que só anda de verdade quando aparece mutirão. Pendurar uma segunda técnica na mesma fila é ótimo — desde que a fila ande.

O que fazer na prática

Se você tem glaucoma e já sabe que vai operar catarata, pergunte ao oftalmologista se o seu caso se encaixa: glaucoma de ângulo aberto, dano inicial ou moderado, pressão controlada com colírio. Se sim, a partir de março de 2027 dá para pedir que as duas coisas sejam feitas juntas.

Se você usa colírio para glaucoma, não pare por conta própria esperando a cirurgia. O dano ao nervo óptico é permanente. A cirurgia combinada pode reduzir ou até dispensar o colírio em parte dos casos, mas isso quem decide é o exame, não a pressa.

Se você tem mais de 40 anos e nunca mediu a pressão do olho, esse é o recado mais importante do texto. O glaucoma não dói, não embaça e não avisa. Quem descobre cedo entra no grupo que essa portaria atende. Quem descobre tarde, entra em outro.

A catarata rouba a visão e devolve na mesa de cirurgia. O glaucoma rouba e não devolve. Juntar as duas operações é inteligente — mas só serve para quem chega a tempo de ter o que salvar.

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