Cinco aceleradores lineares chegam ao SUS — e o paciente de câncer do interior deixa de pegar ônibus às 4h da manhã

Cinco aceleradores lineares chegam ao SUS — e o paciente de câncer do interior deixa de pegar ônibus às 4h da manhã

O governo federal entregou nesta segunda 5 máquinas de radioterapia em Presidente Prudente, Anápolis, Jaraguá do Sul, Lajeado e Teresópolis. Investimento de R$ 58,8 milhões dentro do programa Agora Tem Especialistas. Desde 2023, já são 40 unidades distribuídas — e a fila começa a andar.

SaúdeCidade ·

Quem nunca acompanhou um paciente do SUS em tratamento de radioterapia talvez não entenda o que é a rotina dele. Acorda às quatro da manhã. Pega ônibus rodoviário com mais quinze pessoas em situação parecida — todos do interior do estado, todos com câncer, todos indo para a capital. Chega no hospital público de referência por volta das nove. Espera. Faz a sessão de quinze minutos. Espera o ônibus voltar. Chega em casa quando a noite já caiu. No dia seguinte, repete. Por trinta dias seguidos. Pois saiba: para o paciente de Presidente Prudente, de Anápolis, de Jaraguá do Sul, esse calvário acabou nesta segunda-feira.

O Ministério da Saúde entregou cinco aceleradores lineares para radioterapia em cinco municípios do interior do país. O investimento total foi de R$ 58,8 milhões, dentro do programa Agora Tem Especialistas, que tenta atacar a fila do SUS pelo lado da capacidade — instalando equipamento onde o paciente vive, em vez de exigir que o paciente atravesse o estado para encontrá-lo. Desde 2023, são 40 máquinas entregues. Um número que, em política de saúde pública, significa muito mais do que parece.

O que faz um acelerador linear

Acelerador linear é o equipamento de radioterapia padrão hoje no mundo. Acelera elétrons a velocidade próxima da luz e os converte em fótons de alta energia, dirigidos com precisão milimétrica para o tumor. Ele substitui o velho cobalto — usado por décadas no Brasil — que tem feixe mais largo, menos preciso, e menor capacidade de proteger tecido saudável ao redor. Para o paciente, isso significa menos efeito colateral, menos queimadura de pele, menos lesão em órgão vizinho. Para o sistema, significa fila menor, porque cada sessão é mais rápida.

"Sessões duram de 10 a 15 minutos em cada paciente", explicou o vice-presidente Geraldo Alckmin na entrega. "Em 30 dias, geralmente, encerra-se o tratamento." A matemática é direta: uma máquina nova atende algo entre 60 e 80 pacientes por dia. Dez sessões diárias multiplicadas por trinta dias úteis no mês — duzentos e tantos pacientes em ciclo concluído. Cinco máquinas, mil pacientes a mais por mês de tratamento concluído. Em câncer, essa conta é vida.

Onde foi e por que importa

Os cinco municípios escolhidos não foram aleatórios. São polos regionais de média densidade populacional, em pontos do mapa brasileiro onde a radioterapia mais próxima ficava a 200, 300, às vezes 500 quilômetros. Presidente Prudente, no oeste paulista, vai cobrir 86% da demanda regional. Lajeado, no Vale do Taquari gaúcho, atenderá 73% da demanda da região, servindo oito municípios próximos. Jaraguá do Sul vira referência para Joinville, São Bento do Sul e Mafra. Anápolis cobre o entorno de Goiânia. Teresópolis abre uma porta na serra fluminense.

"Agora, todas as pessoas da região vão poder fazer o tratamento completo do câncer aqui, próximo de onde vivem", disse o ministro da Saúde Alexandre Padilha. Frase política, sim — mas com lastro. Estudos brasileiros mostram que paciente que precisa viajar mais de 100 km para radioterapia tem taxa de abandono significativamente maior que paciente atendido perto de casa. E abandono em radioterapia significa, com frequência, recidiva tumoral. Que significa morte.

O que foi entregue em 27 de abril de 2026:

5 aceleradores lineares de radioterapia
R$ 58,8 milhões de investimento federal
• Programa Agora Tem Especialistas
• Municípios: Presidente Prudente (SP), Anápolis (GO), Jaraguá do Sul (SC), Lajeado (RS) e Teresópolis (RJ)
• Capacidade regional: até 86% da demanda local atendida (Presidente Prudente)
• Total entregue desde 2023: 40 aceleradores lineares

A conta da fila

O Brasil convive com um déficit estrutural de radioterapia. A Sociedade Brasileira de Radioterapia estima que o país precise de algo como 600 aceleradores lineares para atender a demanda oncológica — e até pouco tempo operava com perto de 250. A Lei dos 60 Dias, sancionada em 2012, obriga o SUS a iniciar tratamento de câncer em até dois meses após o diagnóstico. Cumprir isso, sem máquina, é matemática impossível. A fila virou rotina; o atraso, normal.

Cada acelerador novo, portanto, conta dobrado. Não só pelo paciente que ele atende — mas pelo paciente que ele libera de outro hospital, que antes recebia transferências de toda a região e agora pode atender os de casa com menos pressa. É como abrir uma faixa nova de via expressa: o trânsito não some, mas passa a fluir. Quarenta máquinas em três anos é, no ritmo do Brasil, um avanço. Está longe do necessário. É bem mais do que o que vinha sendo feito.

O que ainda falta

Equipamento sem técnico não trata ninguém. Cada acelerador exige uma equipe — radio-oncologista, físico médico, técnico de radioterapia, enfermagem treinada. Há um descompasso conhecido entre a chegada das máquinas e a formação de pessoal especializado, especialmente em cidades médias do interior. O Ministério tem trabalhado em parceria com universidades para acelerar essa formação, mas a verdade é que o gargalo, daqui pra frente, deixa de ser o concreto e o aço — e passa a ser o currículo.

Falta também integrar melhor os fluxos. O paciente que faz radioterapia em Lajeado precisa, antes, ter biópsia, estadiamento, decisão multidisciplinar. Se o restante da rede regional não acompanha, a máquina nova fica subutilizada. O SUS está montando o quebra-cabeça por partes. Esta segunda-feira foi mais uma peça no lugar. O paciente do interior, depois de cinco da manhã na rodoviária pelos últimos vinte anos, talvez agora durma um pouco mais. Em saúde pública, dormir é um luxo que conta como avanço.

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