Quem tem plano de saúde tem 5 vezes mais leitos de UTI que quem depende do SUS

Quem tem plano de saúde tem 5 vezes mais leitos de UTI que quem depende do SUS

Pesquisa da AMIB mapeia 47 mil leitos de UTI adulta no Brasil. Faz a conta por habitante e o resultado é constrangedor: 69 leitos por 100 mil para quem tem convênio, 13 leitos por 100 mil para o resto. E em alguns estados do Norte, o número não passa de 3,6.

SaúdeCidade ·

Se você nunca pensou no número de leitos de UTI por habitante, não tem culpa — ninguém pensa, até alguém da família precisar de um. A conta vira urgente quando a tomografia mostra a mancha errada, quando a saturação cai, quando o cirurgião pede o leito pós-operatório. Aí, de repente, o cidadão descobre que o sistema brasileiro de terapia intensiva, na média, parece bom. E que a média é uma mentira muito bem distribuída.

A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) divulgou nesta semana o levantamento mais completo já feito sobre o tema no país. O Brasil tem hoje 47.644 leitos de UTI adulta. Em uma década, expandiu o número em 67%. A taxa por 100 mil habitantes — 22,3 — está, no papel, acima da média global (8,7). Já dava para fechar a apresentação com slide bonito.

Só que a AMIB foi até a próxima planilha. E lá começa a história real.

O número que importa: 16,6% da população, 51% dos leitos

Os 47 mil leitos do Brasil estão divididos de forma assimétrica entre os dois sistemas. A saúde suplementar — convênios e particular — tem 24.426 leitos. O SUS tem 23.218. À primeira vista, quase empate. Acontece que o SUS atende 177,9 milhões de pessoas, e a saúde suplementar atende 35,5 milhões.

Faça as contas. A saúde suplementar oferece 69 leitos de UTI para cada 100 mil beneficiários. O SUS oferece 13 leitos por 100 mil. A diferença é de 5,3 vezes. Quem tem plano tem cinco vezes mais chance de encontrar um leito vago quando precisa, em média. E "média" aqui já é otimismo.

O Brasil dentro do Brasil

Dentro do SUS, a desigualdade é ainda maior. O Espírito Santo tem 22,8 leitos por 100 mil habitantes — número decente, próximo de país europeu de renda média. O Amapá tem 3,6. A diferença, dentro do mesmo sistema público, dentro do mesmo país, é de mais de seis vezes.

O Sudeste concentra 10.616 leitos do SUS — 15 por 100 mil habitantes. O Norte tem 1.447. Oito por 100 mil. Para fins de referência, a Organização Mundial da Saúde recomenda mínimo de 10 leitos por 100 mil habitantes. O Norte do Brasil, em 2026, está abaixo do piso técnico — e a Pan-Amazônia, com distâncias enormes entre cidade e cidade, tem o sistema mais frágil para responder a casos graves de dengue, leptospirose, infarto, AVC, politrauma.

Leitos de UTI no Brasil — pesquisa AMIB 2026:

47.644 leitos de UTI adulta no total
22,3 leitos por 100 mil habitantes (média nacional)
• Saúde suplementar: 69 leitos por 100 mil beneficiários (35,5 milhões de pessoas)
• SUS: 13 leitos por 100 mil habitantes (177,9 milhões de pessoas)
• Diferença de acesso: aproximadamente 5 vezes
• Espírito Santo: 22,8 leitos por 100 mil no SUS
• Amapá: 3,6 leitos por 100 mil no SUS
• Norte: 8 leitos por 100 mil no SUS — abaixo do piso da OMS (10)
• Crescimento de leitos de UTI no Brasil em 10 anos: 67%

Por que o SUS não tem mais leitos (e não é só dinheiro)

A primeira reação ao ver o número é gritar "abre mais UTI". Cristiano Franke, presidente da AMIB, alertou para algo desconfortável: "em muitos casos, melhorias podem ser alcançadas sem expansão imediata de leitos" — e sim com gestão melhor.

O que ele quis dizer, em português direto: parte dos leitos de UTI do SUS está ocupada com paciente que já não precisa de UTI. Falta enfermaria de retaguarda. Falta unidade semi-intensiva. Falta leito de cuidado paliativo. O paciente fica na UTI porque não há para onde transferir — e isso bloqueia a vaga para quem está chegando à emergência hoje à noite.

O outro gargalo é equipe. Leito de UTI sem médico intensivista, sem enfermeiro de cuidado crítico, sem fisioterapeuta respiratório, é móvel. A formação de intensivistas no Brasil ainda é pequena, concentrada no Sudeste, e o salário no SUS do interior compete mal com o do hospital privado da capital.

O que muda para o paciente real

O paciente de UTI raramente escolhe estar lá. Em geral, é levado: por uma sepse, um infarto, um trauma, uma cirurgia complexa, um pós-operatório complicado. A pergunta prática é quanto tempo demora entre a indicação clínica e o leito disponível. Em hospital privado de grande capital, isso é minutos. Em hospital de referência regional do SUS no interior, pode ser horas. Em UPA do Norte, dias. Cada hora a mais é prognóstico que piora.

É por isso que o número da AMIB é mais do que estatística. Cinco vezes mais leitos para quem paga plano significa que, quando uma família com convênio e uma família sem convênio entram no mesmo dia em emergências de cidades vizinhas, a primeira sai com paciente estabilizado e a segunda, em média, demora muito mais para isso. Ninguém anuncia esse fato no horário comercial. Mas a estatística está aí.

O que o SUS está fazendo (e o que poderia fazer)

O Ministério da Saúde tem ampliado leitos de UTI por habilitação direta — paga ao hospital um valor fixo mensal por leito mantido no SUS. Foi assim que o sistema cresceu 67% na década. O problema é que o ritmo é desigual entre estados, depende de pactuação local e enfrenta judicialização. E a expansão atual não acompanha o envelhecimento da população, que vai pressionar o sistema cada vez mais.

A AMIB sugere três frentes simultâneas: criar mais leitos onde há buraco geográfico claro (Norte, partes do Nordeste), regular melhor o uso dos leitos existentes (com gestão de vagas em rede e protocolos de alta) e formar mais intensivistas com vínculo público. Não é nada que o sistema desconheça. É só que executar custa decisão política.

O Brasil tem 47 mil leitos de UTI adulta — número de país sério. Distribuídos como estão, contam outra história: quem precisa, em geral, não está perto do leito; e quem está perto do leito, em geral, é quem já paga para ter. A média nacional pode estar acima da global. A mediana, dentro do SUS, mostra um país que ainda não decidiu se cuidado intensivo é direito ou produto. Cinco vezes de diferença não é margem. É tese.

Compartilhar: