Brasil bate recorde de transplantes em 2025 — e quase metade das famílias ainda recusa doar

Brasil bate recorde de transplantes em 2025 — e quase metade das famílias ainda recusa doar

Foram 31 mil procedimentos no ano passado, 21% a mais do que em 2022. O SUS pagou 86% da conta. E entre os números bonitos do Ministério da Saúde, sobra um teimoso: 45% das famílias dizem "não" quando aparece a pergunta.

SaúdeCidade ·

Você sabe o nome do parente mais próximo que falaria por você se um carro te atropelasse hoje? Pois é. A maioria dos brasileiros não conversou sobre isso uma vez sequer com a família. E é exatamente nesse silêncio que entram, todo ano, milhares de órgãos viáveis que viram desperdício na sala de UTI.

O Ministério da Saúde divulgou nesta semana o balanço de transplantes de 2025: 31 mil procedimentos realizados no Brasil, alta de 21% em relação a 2022. É recorde absoluto. O SUS pagou cerca de 86% da conta — o que faz do sistema brasileiro o maior programa público de transplantes do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos em volume total. Os Estados Unidos têm trezentos e cinquenta milhões de habitantes e cobertura privada predominante. O Brasil tem o sistema universal mais ativo do planeta nessa área.

Os números são bons. Mas há outro número que precisa entrar na manchete: 45% das famílias seguem recusando a doação no momento em que o médico pergunta.

O que cabe dentro de "31 mil transplantes"

O detalhamento é interessante porque costuma surpreender quem nunca olhou para a estatística. O transplante mais comum no Brasil não é coração. Não é pulmão. É córnea — foram 17.790 procedimentos em 2025. Em seguida, rim (6.697), medula óssea (3.993), fígado (2.573) e coração (427). Pulmão e pâncreas seguem residuais, mas em crescimento.

O que esses números contam é que a maior parte do trabalho do sistema de transplantes é silenciosa. Córnea de doador morto restaura a visão de alguém com ceratocone. Rim de doador vivo tira um paciente da hemodiálise. Não vira matéria de capa. Vira vida normal.

O que o investimento mostra (e o que esconde)

Em 2022, o orçamento federal para transplantes era de R$ 1,1 bilhão. Em 2025, chegou a R$ 1,5 bilhão — alta de 37%. Isso bancou 4.808 voos de transporte de órgãos no ano passado, um aumento de 22% sobre 2022, e a expansão das equipes de captação para 1.600 profissionais distribuídos em 14 estados via programa Prodot.

Sobra dinheiro? Não. Faltam coordenadores hospitalares de transplante em quase todo o Norte e em parte do Nordeste. Faltam tomógrafos para confirmar morte encefálica em hospitais que recebem politraumas. Falta UTI para manter o doador potencial estável até o procedimento. Cada gargalo desses transforma órgão viável em órgão perdido.

Transplantes no Brasil — balanço 2025:

31 mil transplantes realizados (recorde histórico)
• Crescimento de 21% em relação a 2022
86% dos procedimentos pagos pelo SUS
17.790 transplantes de córnea
6.697 transplantes de rim
3.993 transplantes de medula óssea
2.573 de fígado e 427 de coração
4.808 voos de transporte de órgãos em 2025
R$ 1,5 bilhão de orçamento federal (37% acima de 2022)
45% das famílias recusam autorização para doação

O número que pesa: 45% de "nãos"

No Brasil, ninguém doa órgãos sozinho. A lei diz que, mesmo que a pessoa tenha avisado a vida inteira que queria doar, a decisão final cabe à família depois da morte encefálica. E é nessa sala, com a família em estado de choque e o médico tentando ser delicado sem perder a janela clínica de horas, que 45 em cada 100 famílias dizem que não.

Os motivos são conhecidos. Medo de mutilação do corpo. Crença religiosa mal informada (nenhuma religião majoritária no Brasil proíbe doação). Desconfiança do sistema — vai virar mercado, vai virar fila vendida, alguém vai sair na frente. E, sobretudo, falta de conversa prévia. Quem nunca ouviu o parente dizer "eu quero doar" tende, na hora, a optar pelo "no, não sei o que ele queria".

O sistema brasileiro tem usado tecnologia para tentar não desperdiçar. O Virtual Cross-Matching, citado pelo Ministério, faz a checagem de compatibilidade imunológica antes do transporte do órgão — o que reduz rejeição e otimiza a fila. Em 2025, foram 867 transplantes renais interestaduais, 375 hepáticos, 100 cardíacos, 25 pulmonares e quatro pancreáticos. Significa que um rim captado em Manaus chegou e funcionou em Recife. Em 2010, isso era ficção.

Por que 31 mil ainda é pouco

O Brasil tem cerca de 70 mil pessoas em fila de espera por algum tipo de transplante. A fila de córnea anda razoavelmente — em alguns estados, em meses. A fila de rim leva anos. A de fígado é uma corrida contra a doença. A de coração e pulmão é, em muitos casos, perdida antes do paciente chegar à frente da lista.

Para resolver isso, dois caminhos. O primeiro é estrutural: mais hospitais habilitados, mais equipes de captação, mais leitos de UTI capazes de manter doador. O segundo é cultural: conversa em casa. Avisar a família. Documentar a vontade. Tirar a decisão das mãos do parente em luto.

O que você pode fazer agora (sem inscrição em lugar nenhum)

No Brasil, não existe carteira de doador. A vontade vale apenas se a família autorizar. Ou seja: o gesto mais útil que você pode fazer é dizer ao seu parente direto, hoje, em voz alta, que se algo acontecer, você quer doar. Repetir isso para mais de uma pessoa. Deixar claro.

Trinta e um mil transplantes em um ano são uma vitória. Setenta mil pessoas esperando ainda mostram que o problema não é só técnico — é de conversa que ninguém quer ter. O sistema cresceu 21% em três anos. A taxa de recusa familiar mal se mexeu. E, enquanto não se mexer, o Brasil vai continuar sendo um país com infraestrutura crescendo mais rápido do que a generosidade que ela depende para funcionar.

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