Câmara aprova rastreamento de câncer de pulmão no SUS — só 14 anos depois dos EUA

Câmara aprova rastreamento de câncer de pulmão no SUS — só 14 anos depois dos EUA

A Comissão de Saúde aprovou diretrizes para detecção precoce do câncer que mais mata no Brasil. A proposta original previa tomografia anual; a versão final tirou o detalhe técnico. O que sobra é o sintoma de sempre: tudo demora.

SaúdeCidade ·

Câncer de pulmão é o que mais mata câncer no Brasil. Não está em terceiro, não está em quinto — está em primeiro. Mata mais que mama, mais que próstata, mais que colo do útero. E mata principalmente porque é diagnosticado tarde. Quando o paciente chega ao oncologista, geralmente o tumor já passou do estágio em que tem cura.

Nesta segunda-feira, dia 5 de maio, a Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei que cria diretrizes nacionais para rastreamento e diagnóstico precoce da doença no SUS. É uma boa notícia, escrita com 14 anos de atraso. Os Estados Unidos adotaram protocolo similar em 2013. A Europa, em 2022. O Brasil chega agora — e ainda assim, só na Comissão. Falta passar por Finanças, por CCJ, plenário da Câmara, plenário do Senado e sanção presidencial.

O nome técnico do que se aprovou é "diretrizes nacionais para rastreamento e diagnóstico precoce do câncer de pulmão". Em linguagem humana: o SUS vai ter, oficialmente, um plano para encontrar a doença antes que ela mate.

Por que rastrear faz diferença (e por que custa caro)

O câncer de pulmão tem uma característica cruel: ele cresce em silêncio. Não dói. Não sangra. Não aparece no espelho. O sintoma mais comum, quando aparece, é uma tosse persistente — o que num país de fumantes e ex-fumantes parece banal. Quando começa a falta de ar, dor no peito, perda de peso, geralmente é tarde.

Rastreamento serve para furar esse silêncio. A ferramenta padrão é a tomografia computadorizada de baixa dose, feita anualmente em pessoas de alto risco — geralmente fumantes pesados ou ex-fumantes acima dos 50 anos. O estudo americano que estabeleceu o protocolo, o National Lung Screening Trial, mostrou redução de 20% na mortalidade. Não é cura mágica. É detectar nódulo de 8 milímetros em vez de tumor de 4 centímetros.

O problema é que tomografia não é exame de UBS. Cada tomografia custa, no SUS, em torno de R$ 250-400. Multiplique pelos milhões de fumantes e ex-fumantes brasileiros e você entende a hesitação histórica. Implementar rastreamento universal de câncer de pulmão no SUS é uma conta pesada — e o sistema já sangra de subfinanciamento.

O que a versão aprovada diz (e o que ela tirou)

A proposta original, da deputada Flávia Morais (PDT-GO), trazia detalhes operacionais: tomografia computadorizada anual em grupos específicos de risco, rede mínima de equipamentos, prazos. O substitutivo aprovado, do relator Geraldo Resende, removeu essas especificações. O argumento foi evitar "engessamento" da prática médica — em outras palavras, não amarrar o SUS a um protocolo único quando a ciência está em movimento.

O que o projeto aprovado prevê:

Ações educativas sobre fatores de risco do câncer de pulmão
Capacitação de profissionais de saúde para identificação precoce
Estratégias de saúde digital para alcançar populações de risco
Busca ativa de grupos de risco na atenção primária
Integração com programas de cessação do tabagismo
O que ficou de fora: obrigação de tomografia anual
Tramitação: falta passar pelas comissões de Finanças e CCJ

O que sobra é uma carta de princípios. Importante? Sim. Concreto? Pouco. Sem definição de qual exame, em quais pacientes, com qual periodicidade, a "diretriz nacional" depende inteiramente de regulamentação posterior do Ministério da Saúde — e do dinheiro que vier com ela.

O contexto que ninguém menciona

O Brasil tem cerca de 18% da população adulta fumando — e mais 15% que são ex-fumantes. Faça as contas: estamos falando de algumas dezenas de milhões de pessoas em risco aumentado de câncer de pulmão. O Inca estima 32 mil novos casos por ano e mais de 28 mil mortes. A taxa de sobrevida em 5 anos, no Brasil, é abaixo de 20% — porque a maioria descobre tarde.

E há a desigualdade de sempre. Quem tem plano de saúde pediu tomografia ao primeiro check-up depois dos 50 anos. Quem depende do SUS encontra o nódulo quando ele já fez metástase para o cérebro. A diretriz aprovada na Câmara é uma tentativa de corrigir essa diferença. Vai conseguir? Depende inteiramente de quanto orçamento vier junto.

O elefante na sala: cigarro continua sendo o problema

Toda discussão sobre rastreamento de câncer de pulmão precisa começar e terminar no mesmo lugar: 85% dos casos são causados pelo tabagismo. O cigarro mata cerca de 161 mil brasileiros por ano — câncer de pulmão é só uma das mortes que ele provoca, junto com infarto, AVC, DPOC, câncer de boca, esôfago, bexiga, e por aí vai.

O Brasil tem um dos programas antifumo mais bem-sucedidos do mundo. Em 1989, 35% dos brasileiros adultos fumavam. Em 2024, a taxa caiu para perto de 9% entre adultos — uma das maiores quedas registradas globalmente. Mas o cigarro eletrônico está reabrindo a ferida: o uso entre jovens cresceu mais de 600% nos últimos cinco anos, segundo dados da Anvisa, mesmo com o produto sendo proibido no país.

Rastreamento ajuda a salvar quem já está em risco. Mas o que muda mesmo a curva da doença daqui a 30 anos é o que o adolescente faz com o vape hoje.

O que fazer (de verdade)

Se você fuma ou fumou — especialmente se fumou pesado e por muito tempo, e parou há menos de 15 anos —, converse com seu médico sobre rastreamento. No SUS, a regulamentação ainda está sendo construída, mas tomografia de baixa dose já é oferecida em alguns centros de referência. Não espere a lei sair. Pergunte agora.

Se você fuma, pare. Sabe que precisa. Sabe que o SUS oferece o tratamento de graça em qualquer UBS — adesivo, goma, terapia comportamental, bupropiona. A taxa de sucesso quem busca apoio é três vezes maior que quem tenta sozinho.

O projeto aprovado nesta semana é importante. Mas ele resolve o futuro de quem ainda não tem o tumor. Para quem fuma há 30 anos e tem 55 hoje, a janela de oportunidade fecha rápido. O SUS está chegando — é melhor começar a olhar para o pulmão antes que o pulmão comece a falar mais alto.

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