Tem Phesgo falso no mercado — e quem precisa conferir o lote é você
A Anvisa mandou apreender o lote B5011B05 do Phesgo, remédio de câncer de mama HER2-positivo, depois que a própria Roche achou unidades que não saíram da fábrica dela. Na mesma leva caíram três lotes falsos de Dysport, propaganda de manipulados "emagrecedores" e cannabis vendida sem registro.
Imagine a cena. Você recebeu o diagnóstico de câncer de mama, passou pela biópsia, esperou o resultado do exame que mede o HER2 e finalmente ouviu que existe um tratamento dirigido para o seu tipo de tumor. Você chega à clínica, senta na poltrona, a enfermeira aplica a injeção na coxa. E o que entrou ali pode não ser remédio nenhum.
Não é roteiro de série policial. Nesta segunda-feira, 21 de setembro, a Anvisa publicou no Diário Oficial da União a determinação de apreensão de um lote falsificado do Phesgo, medicamento usado no tratamento do câncer de mama.
Quem deu o alarme não foi fiscal, nem polícia, nem hospital. Foi a própria fabricante, a Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos, que informou à agência ter encontrado no mercado unidades "com características diferentes das do produto original". Traduzindo: alguém está vendendo caixas de Phesgo que a Roche não fez.
O que foi apreendido
A medida atinge exclusivamente as embalagens do lote B5011B05, com data de fabricação de junho de 2025. Esse lote não pode ser armazenado, comercializado, importado, exportado nem utilizado. A orientação oficial é que pacientes e profissionais de saúde verifiquem o número do lote antes da aplicação.
A mesma resolução derrubou mais coisa. A Beaufour Ipsen Farmacêutica, dona do registro da toxina botulínica Dysport, avisou que não reconhece três lotes que circulam por aí. E a Anvisa suspendeu a propaganda na internet de manipulados vendidos pela Queen Pharma Aesthetic e pela Farmácia Malheiro, além de proibir a venda de produtos de cannabis anunciados por uma empresa que nem sequer foi identificada.
• Phesgo (pertuzumabe + trastuzumabe), lote B5011B05, fabricado em junho de 2025: apreensão e proibição de uso
• Dysport (toxina botulínica tipo A), lotes P08191 (validade abril/2029), P08192 (maio/2029) e P22368 (fevereiro/2029): apreensão
• Propaganda suspensa de manipulados da Queen Pharma Aesthetic anunciados para emagrecimento, gordura localizada, cabelo e melasma
• Propaganda suspensa de manipulados no site da Farmácia Malheiro
• Venda e divulgação proibidas de produtos de cannabis sem registro anunciados em site e redes sociais por empresa não identificada
• Quem tiver produto desses lotes: não usar e comunicar a vigilância sanitária
Por que falsificar justo um remédio de câncer
O Phesgo não é um remédio qualquer. É a combinação de dois anticorpos monoclonais — o pertuzumabe e o trastuzumabe — que atacam o receptor HER2, uma proteína que certos tumores de mama produzem em excesso e que funciona como um acelerador preso no fundo. Esse subtipo, o HER2-positivo, responde por algo como 15% a 20% dos cânceres de mama, e já foi um dos de pior prognóstico antes de existirem essas drogas.
A grande novidade do Phesgo, aprovado pela Anvisa em dezembro de 2021, é a via. Em vez de duas infusões na veia, a dupla vem pronta numa injeção subcutânea. A primeira aplicação leva cerca de 8 minutos, as de manutenção cerca de 5. A versão intravenosa sequencial toma perto de 150 minutos na dose de ataque e de 60 a 90 nas seguintes. No estudo PHranceSCa, 85% das pacientes preferiram a subcutânea.
Agora junte as peças do ponto de vista de um falsificador. Remédio biológico, de altíssimo valor por dose, comprado por clínicas, por hospitais e — muitas vezes — pela própria família, com dinheiro de vaquinha ou de decisão judicial. Líquido transparente num frasco pequeno. Ninguém em casa tem como distinguir um anticorpo monoclonal de soro fisiológico olhando contra a luz.
É o produto perfeito para o crime: margem de traficante e cliente desesperado. A falsificação de remédio emagrecedor dá manchete; a de oncológico dá óbito silencioso, porque o tumor que não foi tratado não avisa que não foi tratado.
O dano que não aparece na hora
A pergunta que todo mundo faz é "o que tinha dentro?". A Anvisa não divulgou, e em falsificação a resposta costuma ser uma loteria: água, soro, outra substância, o princípio ativo verdadeiro em dose errada, ou produto vencido reembalado. Qualquer uma delas é ruim, mas o pior cenário nem é o veneno — é o nada.
Remédio falso que causa reação alérgica pelo menos chama atenção. Remédio falso inerte passa despercebido por semanas ou meses, enquanto o tumor segue crescendo sob a impressão de que está sendo combatido. No câncer de mama HER2-positivo, em que o tratamento dirigido muda a curva de sobrevida, tempo perdido não é detalhe estatístico.
A falha é de todos — mas a conferência sobrou para o paciente
Repare no desenho da coisa. Quem descobriu foi o fabricante. Quem publicou foi a agência reguladora. E quem precisa conferir, na ponta, é o paciente ou a enfermeira na hora da aplicação. Entre a fábrica e o braço existe uma cadeia inteira — distribuidora, importadora, farmácia, clínica — e em algum ponto dela entraram caixas que não deveriam existir.
O Brasil tem sistema para rastrear medicamento lote a lote, previsto em lei desde 2009 e empurrado com a barriga por mais de uma década. Enquanto a rastreabilidade não funcionar de ponta a ponta, a última barreira contra a falsificação continua sendo alguém lendo, com os próprios olhos, um código impresso na lateral da caixa.
É pouco. Mas é o que existe hoje — e funciona melhor do que parece.
O que fazer (de verdade)
Se você ou alguém da família usa Phesgo, peça para ver a caixa. O número do lote e a data de fabricação estão impressos na embalagem. Se for B5011B05, não aplique. Avise o oncologista e a clínica imediatamente.
Se o remédio foi comprado fora do circuito normal — importadora informal, "representante" no WhatsApp, preço muito abaixo do que as outras farmácias cobram —, desconfie mesmo que o lote seja outro. Oncológico barato demais é como Rolex de camelô: a pechincha é o próprio aviso.
Se você compra por decisão judicial e a família precisa cotar o remédio por conta própria, exija nota fiscal e compre de farmácia ou distribuidora com autorização da Anvisa. A consulta de empresas e registros pode ser feita nos sistemas públicos da própria agência.
Se notou algo estranho — embalagem com erro de português, lacre diferente, líquido com cor ou aspecto incomum, reação que nunca tinha acontecido —, relate à vigilância sanitária e ao fabricante. Foi exatamente assim, com a Roche percebendo diferença no produto, que esse lote caiu.
E para quem estava com o Dysport na agenda estética: vale a mesma regra. Pergunte o lote antes da aplicação. Se o profissional se ofender com a pergunta, você já tem a resposta.
Câncer não se trata com esperança engarrafada. O número do lote cabe numa linha da caixa — e pode valer um ano de tratamento.
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