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Exame de sangue que caça 50 cânceres chega por R$ 6.990 — e deixa 6 em 10 passarem

Exame de sangue que caça 50 cânceres chega por R$ 6.990 — e deixa 6 em 10 passarem

Fleury e Einstein começaram a vender no Brasil o Galleri, da americana GRAIL, uma biópsia líquida que procura sinais de mais de 50 tipos de tumor numa amostra de sangue. A especificidade é alta, de 99,6%. Mas no maior estudo do teste ele encontrou só 39% dos cânceres diagnosticados em um ano, quatro em cada dez alarmes foram falsos e ainda não há prova de que salve vidas. Nenhum plano cobre.

SaúdeCidade ·

Imagine um exame que, com um único tubo de sangue, olha para o seu corpo inteiro e responde: tem câncer aí, e provavelmente está no pâncreas. Sem mamógrafo apertando, sem preparo de colonoscopia, sem nada. Parece o sonho de qualquer pessoa com mais de 50 anos e um parente que descobriu a doença tarde demais.

Esse exame chegou ao Brasil. Chama-se Galleri, foi desenvolvido pela americana GRAIL e passou a ser vendido pela Genesis Genomics, joint venture do Grupo Fleury com o Hospital Israelita Albert Einstein. Está disponível no Einstein e em mais de 580 unidades do Fleury. Preço: R$ 6.990, pagos do seu bolso, porque nenhum plano de saúde cobre.

A tecnologia é real, os dados são sérios e o marketing é brilhante. O problema é o que fica entre as três coisas.

Como o teste funciona

Todo tumor solta pedacinhos do próprio DNA na corrente sanguínea. É o chamado DNA tumoral circulante. O Galleri não procura mutações; procura um padrão químico chamado metilação, uma espécie de assinatura que muda conforme o tecido de origem. Com ela, o teste diz duas coisas: se há um "sinal de câncer" e de onde ele provavelmente vem.

A coleta é feita aqui, mas a amostra viaja: o processamento acontece no laboratório da GRAIL, nos Estados Unidos. O público-alvo, segundo as empresas, são pessoas sem sintomas acima de 50 anos, quem tem parente de primeiro grau com câncer e quem tem fatores de risco como o tabagismo. Gestantes, pacientes em tratamento de câncer e menores de 22 anos não devem fazer. Se o resultado vier negativo, dá para repetir entre três e seis meses depois sem pagar de novo.

Os números que aparecem no folheto

A propaganda se apoia no PATHFINDER 2, estudo com mais de 35 mil participantes nos Estados Unidos e no Canadá, apresentado no congresso da ASCO em 2026. Ali, o teste teve especificidade de 99,6%, ou seja, deu alarme falso em menos de 0,4% das pessoas sem câncer. Quando acertou, apontou a origem do tumor em 91% das vezes. E 71% dos cânceres encontrados estavam nos estágios I a III, quando ainda há mais chance de tratamento.

"Sempre foi um desafio identificar precocemente os cânceres de pâncreas, ovário", disse Edgar Gil Rizzatti, do Grupo Fleury. É verdade, e é exatamente por isso que o teste desperta tanto interesse: a maioria desses tumores não tem nenhum rastreamento disponível.

Os números que não aparecem

Agora a parte que o folheto não destaca. A sensibilidade, que mede quantos cânceres o teste encontra, foi de 39,3% no PATHFINDER 2, considerando os tumores diagnosticados até 12 meses depois da coleta. Traduzindo: de cada dez pessoas que tinham câncer, o exame deixou seis passarem como "nada detectado".

E não é que os falsos positivos sumiram. Dos 287 participantes com sinal de câncer, 173 tinham a doença. Os outros 114 passaram pelo susto, e muitos pela investigação, à toa. O valor preditivo positivo ficou em 60,3%: se o seu exame der positivo, há quatro chances em dez de que não haja tumor nenhum. Na análise do FDA, 47,8% das pessoas com alarme falso passaram por pelo menos um procedimento invasivo, como biópsia ou endoscopia.

O detalhe mais incômodo vem do NHS-Galleri, o grande estudo britânico. Lá, a sensibilidade para tumores em estágio I, justamente os que mais se beneficiariam de diagnóstico precoce, foi de 13,6%. Para câncer de mama ficou em 19,1%, e para próstata em 10,7%. O teste enxerga melhor o que já cresceu. É como um alarme de incêndio que dispara com confiança quando a sala já está tomada de fumaça.

Galleri: o que os estudos mostram
• Preço no Brasil: R$ 6.990, sem cobertura de plano ou SUS
• Especificidade: 99,6% (PATHFINDER 2, 35.878 participantes)
• Sensibilidade em 12 meses: 39,3% para todos os cânceres; 69,8% para os 12 mais letais
• Valor preditivo positivo: 60,3% (173 cânceres em 287 alarmes)
• Acerto da origem do tumor: 91,3%
• Sensibilidade no estágio I (NHS-Galleri): 13,6%; mama 19,1%; próstata 10,7%
• Painel do FDA (set/2026): 6 a 4 pela eficácia; 7 a 2 pela relação benefício-risco
• Redução de mortes por câncer: ainda não demonstrada
(Fontes: GRAIL/ASCO 2026; FDA; Genesis Genomics)

Achar mais câncer não é o mesmo que salvar mais gente

Esta é a pergunta que define qualquer exame de rastreamento, e o Galleri ainda não a respondeu. Detectar um tumor mais cedo só vale a pena se isso fizer as pessoas viverem mais. Às vezes faz. Às vezes o exame só antecipa a data do diagnóstico sem mudar a data da morte, e o paciente passa mais anos sabendo que está doente.

Em setembro, um comitê consultivo do FDA, a agência americana, analisou o pedido de aprovação. Votou 10 a 0 pela segurança, mas só 6 a 4 pela eficácia e 7 a 2, com uma abstenção, pela relação entre benefício e risco. Nos Estados Unidos, o teste só é vendido com prescrição médica. As próprias empresas admitem que uma eventual cobertura, inclusive pelo SUS, depende de dados de acompanhamento sobre mortalidade, que ainda não existem.

O Einstein fala em incorporar o exame "de forma pioneira", nas palavras do oncologista Nam Jin Kim. Pioneirismo, em medicina, costuma ter um custo: quem chega primeiro paga a conta e serve de dado para quem vem depois.

Se você está pensando em fazer

Não troque o rastreamento que funciona. Os próprios especialistas envolvidos repetem: o Galleri não substitui mamografia, colonoscopia, papanicolau ou teste de HPV. Esses exames reduzem a mortalidade comprovadamente. Um resultado "nada detectado" no Galleri não dispensa nenhum deles.

Faça as contas antes de pagar. R$ 6.990 é o preço de um exame que, na melhor estimativa, deixa passar a maioria dos cânceres do primeiro ano. Se o orçamento é limitado, a colonoscopia e a mamografia em dia rendem mais.

Pergunte o que acontece se der positivo. Um sinal de câncer leva a tomografia, ressonância, endoscopia e, muitas vezes, biópsia. Se o plano não cobre o teste, ele vai cobrir a investigação? Converse com o médico antes, não depois.

Prepare-se para a ansiedade. Quatro em cada dez positivos são alarme falso. Isso significa semanas de exames e noites mal dormidas até alguém dizer que estava tudo bem.

A biópsia líquida provavelmente é o futuro do rastreamento de câncer. Hoje, ela é um exame que acerta muito quando acusa e erra muito quando silencia. Por R$ 6.990, você compra uma tecnologia promissora e uma pergunta que a ciência ainda não respondeu.

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