Metade dos cânceres de mama é achada tarde — e o SUS faz menos mamografia
O Panorama do Câncer de Mama 2026, do Instituto Natura, Avon, Instituto Protea e Observatório da Oncologia, com dados do INCA, mostra que 51% dos casos de 2015 a 2025 foram diagnosticados nos estágios 3 e 4, que a cobertura de mamografia caiu para 22,1% e que 2025 teve o maior número de mortes da série: 21.668.
É outubro, e você já sabe o roteiro. Prédio público iluminado de rosa, laço no perfil da prefeitura, campanha na TV pedindo que você "se toque". Tudo muito bonito. Agora feche os olhos e tente marcar uma mamografia pelo SUS em Palmas, no Tocantins. Abra os olhos. O laço continua rosa; a fila, não.
O Panorama do Câncer de Mama 2026, divulgado nesta semana pelo Instituto Natura, pela Avon, pelo Instituto Protea e pelo Observatório da Oncologia do movimento Todos Juntos Contra o Câncer, com dados do INCA, mostra o que a iluminação esconde: entre 2015 e 2025, 51% dos casos de câncer de mama no Brasil foram diagnosticados nos estágios 3 e 4 — quando o tumor já cresceu, já foi para os linfonodos ou já se espalhou pelo corpo.
Metade. Num câncer em que o diagnóstico precoce é a diferença entre uma cirurgia com boa chance de cura e anos de quimioterapia paliativa.
Menos exames, ano após ano
A explicação começa no exame que deveria encontrar o tumor antes de ele virar caroço. O número de mamografias no SUS caiu 0,2% em 2024 e mais 1% em 2025. A cobertura entre mulheres de 50 a 69 anos — a faixa-alvo do rastreamento — escorregou de 22,8% para 22,1%.
Para ter noção do tamanho do buraco: a Organização Mundial da Saúde considera que um programa de rastreamento só derruba a mortalidade quando alcança pelo menos 70% da população-alvo. O Brasil está em pouco mais de um quinto. É como vacinar um em cada cinco e esperar imunidade de rebanho.
Esta edição também mudou a régua. Em vez da base de Registros Hospitalares de Câncer, considerada defasada, o estudo passou a usar o Painel de Oncologia do INCA. A troca não melhorou o retrato. Piorou: com dados mais atuais, o cenário ficou mais duro do que o das edições anteriores.
• Diagnóstico em estágio 3 ou 4 (2015–2025): 51% dos casos
• Tardio por idade: 68,3% (20–29 anos), 61,9% (30–39), 53,7% (40–49), 47,6% (50–69)
• Mamografias no SUS: −0,2% em 2024 e −1% em 2025
• Cobertura de 50 a 69 anos: 22,8% → 22,1% (meta da OMS: 70%)
• Pior cobertura em 2025: Tocantins (5,8%), Rondônia (7,9%), Pará (8,7%); Região Norte, 10,6%
• Óbitos: 203.785 entre 2015 e 2025; 21.668 só em 2025, recorde da série
• Espera entre diagnóstico e tratamento: 86 dias em média em 2025; 67,4% das pacientes passaram dos 60 dias da lei
(Fonte: Panorama do Câncer de Mama 2026 — Instituto Natura, Avon, Instituto Protea e Observatório da Oncologia/TJCC, com dados do INCA)
Quanto mais jovem, mais tarde
O dado mais incômodo está na divisão por idade. Na faixa de 50 a 69 anos, que por anos foi a única convidada para o rastreamento no SUS, o diagnóstico tardio é de 47,6% — ruim, mas o "melhor" da tabela. Abaixo disso, a curva sobe: 53,7% entre 40 e 49 anos, 61,9% entre 30 e 39 e 68,3% entre 20 e 29.
Faz sentido, e é aí que dói. A mulher de 35 anos não está em nenhum programa de rastreamento; quando sente um nódulo, ouve que "é jovem demais para isso", que "deve ser hormonal", que "volta daqui a seis meses". E tumores em mulheres jovens tendem a ser mais agressivos. Somam-se a falta de suspeita e a biologia ruim — e o diagnóstico chega com o câncer já avançado.
Não é argumento para mamografia anual aos 25 anos, que expõe a radiação e gera falso-positivo à toa. É argumento para levar a sério a queixa da mulher jovem e garantir ultrassom e biópsia rápidos quando há sintoma.
O CEP que decide o estágio
Em 2025, a Região Sul teve cobertura de 25,6%. A Norte, 10,6%. O Centro-Oeste, 13,5%. Descendo para os estados, a distância fica obscena: o Piauí chegou a 32,4%, a Bahia a 28,8%, São Paulo a 28,7% — enquanto o Pará ficou em 8,7%, Rondônia em 7,9% e o Tocantins em 5,8%.
Traduzindo: uma mulher de 55 anos no Tocantins tem menos de uma chance em dezessete de ter feito a mamografia de rastreamento. Não é falta de informação — campanha de Outubro Rosa existe em Palmas também. É falta de mamógrafo funcionando, de técnico, de radiologista para laudar, de transporte para chegar ao exame.
E os números de morte acompanham. Foram 203.785 óbitos em onze anos e 21.668 em 2025, o maior número já registrado. O INCA estima 78,6 mil casos novos de câncer de mama em 2026 — é o tumor mais comum entre as brasileiras, fora o de pele não melanoma.
Os 60 dias que ficaram no papel
Desde 2012, a Lei 12.732 garante que o paciente com câncer comece o tratamento no SUS em até 60 dias após o diagnóstico. Na média de 2015 a 2025, a espera foi de 123 dias. Em 2025 a média caiu para 86 dias — melhorou, mas 67,4% das pacientes ainda passaram do prazo legal. Sergipe teve a pior média (115 dias), seguido do Rio de Janeiro (107) e da Bahia (100).
Repare na Bahia: está entre os estados que mais fazem mamografia e entre os que mais demoram para tratar. Achar o tumor cedo e depois deixar a paciente três meses na fila é desperdiçar justamente a vantagem que o rastreamento comprou. "Informação, acesso e oferta precisam caminhar juntos", resumiu Mariana Lorencinho, do Instituto Natura. Nira Cará, do Instituto Protea, cobrou uma "linha de cuidado estruturada e resolutiva" — que é o jeito educado de dizer que hoje cada etapa anda sozinha.
O que fazer (além de trocar a foto do perfil)
Se você tem de 50 a 74 anos, faça a mamografia a cada dois anos — desde setembro de 2025 o rastreamento do SUS vai até os 74, e você tem direito. Peça na unidade básica; se a fila travar, procure a ouvidoria da secretaria de saúde.
Se você tem de 40 a 49 anos, o exame também é garantido, mesmo sem sintoma, desde setembro de 2025. Não há convite periódico: o profissional explica benefícios e desvantagens e a decisão final é sua.
Em qualquer idade, nódulo novo, retração do mamilo, secreção com sangue ou pele de casca de laranja pedem avaliação rápida — não "volta em seis meses". Insista, peça ultrassom e, se for o caso, biópsia.
Diagnóstico na mão, conte os dias. Passou de 60 sem iniciar o tratamento, a lei está do seu lado: Defensoria Pública e Ministério Público resolvem mais rápido do que parece.
O Outubro Rosa já virou tradição, com direito a monumento iluminado. Falta virar exame marcado. Enquanto metade dos tumores for encontrada quando já não cabe mais na palma da mão, laço nenhum resolve.
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