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A Conitec disse não à caneta pelo preço — agora o preço caiu 70%

A Conitec disse não à caneta pelo preço — agora o preço caiu 70%

O Ministério da Saúde protocolou na Conitec, em 24 de setembro, o pedido para avaliar semaglutida e liraglutida contra a obesidade no SUS. Em 2025, a comissão recusou por causa de uma conta de R$ 8 bilhões por ano. Sem patente, o preço desabou. A comissão tem 180 dias para responder.

SaúdeCidade ·

Há um ano, se você quisesse uma caneta de semaglutida, precisava de receita e de R$ 1,7 mil a R$ 2 mil por mês. Hoje, segundo o próprio Ministério da Saúde, dá para achar na farmácia por R$ 300 a R$ 400. Ninguém descobriu uma molécula nova nesse meio-tempo. O que mudou foi o calendário: a patente venceu.

E foi com a calculadora na mão que o governo voltou à mesa. Nesta quinta-feira, 24 de setembro, o Ministério da Saúde protocolou na Conitec — a comissão que decide o que entra no SUS — o pedido para avaliar a incorporação da semaglutida e da liraglutida no tratamento da obesidade. As duas moléculas, lembra o ministério, não têm mais proteção de patente no Brasil.

O "não" de 2025 tinha preço

Para entender o pedido, é preciso voltar a agosto de 2025. Naquele mês, a Conitec recomendou não incorporar a semaglutida para pacientes com obesidade, doença cardiovascular e mais de 45 anos. Ninguém discutiu se o remédio funcionava — funciona. O problema era o tamanho da fatura: um impacto estimado em R$ 8 bilhões por ano, segundo o portal Futuro da Saúde, "ponto decisivo para a negativa".

Não foi a primeira porta fechada. O pedido desta semana é o sexto que a Conitec recebe para avaliar essas moléculas. A liraglutida já foi recusada duas vezes, e em outra ocasião a análise foi suspensa a pedido da própria fabricante, a Novo Nordisk. A empresa, aliás, protocolou um novo pedido em maio, que segue em análise. Na fila, um dos recortes em discussão é bem estreito: prevenção de infarto e AVC em pessoas com 45 anos ou mais, sem diabetes, com obesidade graus 1 e 2 e que já tiveram um infarto.

Em junho, o SUS entrou pela porta dos fundos: um projeto-piloto no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, com 250 pacientes, financiado com aporte da própria fabricante. O pedido de agora é outra coisa — é a tentativa de transformar a caneta em direito, e não em experimento.

O pedido em números
• Protocolo na Conitec: 24 de setembro de 2026, pelo Ministério da Saúde
• Moléculas: semaglutida e liraglutida, ambas sem patente no Brasil
• Queda de preço: 70% em menos de um ano, segundo o ministério
• Canetas registradas no país: 25, sendo 14 só em 2026, incluindo nacionais e genéricos
• Obesidade em adultos: de 11,8% (2006) para 25,7% (2024)
• Negativa anterior: agosto de 2025, com impacto estimado em R$ 8 bilhões por ano
• Prazo da Conitec: 180 dias, prorrogáveis por mais 90

O que mudou na conta

Quase tudo. Com a patente vencida, o mercado brasileiro virou feira: são 25 canetas registradas, 14 delas em 2026, com versões produzidas no país e genéricos. O ministério atribui isso a uma estratégia articulada com a Anvisa desde 2025 para atrair fabricantes — e comemora que o Brasil tem hoje a maior variedade do produto no mundo.

Faça o exercício de guardanapo: se o preço caiu 70% e nada mais mudasse, aqueles R$ 8 bilhões virariam algo perto de R$ 2,4 bilhões. A conta real não é tão simples — depende de quantos pacientes, por quanto tempo, a que preço o SUS consegue comprar em escala. Mas o argumento que derrubou o pedido de 2025 perdeu boa parte do peso. Literalmente.

Do outro lado da balança, a obesidade mais que dobrou em adultos brasileiros em menos de duas décadas, de 11,8% para 25,7%. Um em cada quatro. E a Organização Mundial da Saúde publicou no fim de 2025 sua primeira diretriz sobre os agonistas de GLP-1, defendendo acesso equitativo e sistemas de saúde preparados para usá-los.

Não vai ser caneta para todo mundo

Aqui é bom baixar a expectativa antes que ela vire frustração. Mesmo que a Conitec diga sim, o ministério já avisou que será preciso definir critérios clínicos de acesso, "concentrando a utilização nos pacientes em que o controle da obesidade possa produzir benefícios relevantes para a saúde e reduzir complicações". Traduzindo do burocratês: a tendência é priorizar quem tem obesidade com complicações — diabetes, pressão alta, doença do coração. Quem quer perder cinco quilos para o verão não está nessa fila.

"Colocamos essa medicação no SUS como um direito, de forma responsável", disse o ministro Alexandre Padilha. O presidente Lula foi mais direto, durante visita a uma fábrica: "Essa canetinha vai ser utilizada para cuidar de graça das pessoas que tenham obesidade, quando o médico detectar que um homem ou uma mulher tem problema de saúde". Estamos a pouco mais de uma semana da eleição, e promessa em palanque não é portaria. Quem decide é a Conitec, com consulta pública no meio, e o relógio de até 270 dias começou a correr agora.

O que fazer enquanto isso

Não compre caneta "de SUS" nem "de laboratório" em rede social. A Anvisa vive apreendendo produto falso, manipulado irregular e tirzepatida vendida em pó na internet. Com preço de farmácia caindo, não existe mais desculpa para arriscar.

Se você tem obesidade e alguma complicação — diabetes, hipertensão, apneia, doença cardíaca —, converse na sua unidade de saúde sobre acompanhamento. Se a incorporação sair, é esse histórico no prontuário que vai mostrar que você se encaixa nos critérios.

Acompanhe a consulta pública. Quando a Conitec abrir, qualquer cidadão pode opinar. Relatos de pacientes e de profissionais entram no relatório que a comissão analisa antes da decisão final.

Em 2025, o SUS disse que a caneta era cara demais. A caneta ficou 70% mais barata. Agora a Conitec vai ter de explicar se o problema era mesmo o preço.

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