Butantan vai produzir o remédio contra câncer mais caro do SUS — e isso muda tudo

Butantan vai produzir o remédio contra câncer mais caro do SUS — e isso muda tudo

O pembrolizumabe custa R$ 400 milhões por ano ao sistema público e atende apenas 1.700 pacientes. A parceria com a MSD promete nacionalizar a produção e multiplicar o acesso por oito. A pergunta é: por que demorou tanto?

SaúdeCidade ·

Existe um medicamento que ensina o sistema imunológico a reconhecer e destruir células cancerígenas. Que é menos tóxico que a quimioterapia convencional. Que tem eficácia comprovada contra melanoma, câncer de pulmão, câncer de colo do útero, de esôfago e de mama triplo-negativo. E que custa, no Brasil, cerca de R$ 30 mil por mês por paciente. Seu nome é pembrolizumabe — você provavelmente o conhece pela marca Keytruda.

O SUS gasta R$ 400 milhões por ano com ele. Para atender 1.700 pessoas. Faça a conta: são R$ 235 mil por paciente por ano. Enquanto isso, a demanda estimada é de 13 mil pacientes — quase oito vezes mais do que o sistema consegue bancar. Os outros 11.300 esperam. Alguns morrem esperando.

Na quarta-feira, o Instituto Butantan e a farmacêutica americana MSD assinaram um acordo que pode mudar esse cenário. O Butantan vai receber transferência de tecnologia para produzir o pembrolizumabe no Brasil. A notícia é boa. O prazo — dez anos — é que dá vontade de chorar.

O que o pembrolizumabe faz (e por que é tão caro)

O pembrolizumabe pertence a uma classe de medicamentos chamada "inibidores de checkpoint imunológico". A explicação simples: células cancerígenas são espertas. Elas exibem na superfície uma proteína chamada PD-L1 que funciona como um disfarce — quando as células do sistema imunológico se aproximam, essa proteína diz "calma, sou amiga, não me ataque". O pembrolizumabe arranca esse disfarce. O sistema imunológico finalmente enxerga o tumor e faz o que deveria ter feito desde o início: destroi-lo.

É uma abordagem elegante e, para muitos pacientes, transformadora. Em melanoma metastático, o pembrolizumabe aumentou a sobrevida de meses para anos. Em câncer de pulmão com expressão de PD-L1, a taxa de sobrevida em 5 anos saltou de 5% para 30%. Não é cura para todos — mas para quem responde ao tratamento, é a diferença entre viver e não viver.

O preço, porém, reflete o monopólio. A MSD é a única fabricante mundial do pembrolizumabe. Sem concorrência, o preço é o que ela quiser cobrar. Em 2025, a receita global do Keytruda foi de US$ 25 bilhões — o medicamento mais vendido do planeta. Para a MSD, é um negócio extraordinário. Para o SUS, é um buraco no orçamento.

O acordo: o que muda e quando

A parceria segue o modelo de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), em que o governo oferece mercado garantido em troca de transferência de tecnologia. Na prática, funciona assim: a MSD continua fornecendo o medicamento pronto enquanto ensina o Butantan a fabricá-lo. Gradualmente, o Butantan assume etapas do processo — primeiro rotulagem e envase, depois formulação, e finalmente a produção do princípio ativo (IFA).

Parceria Butantan-MSD — o que esperar:

Hoje: 1.700 pacientes atendidos, custo de R$ 400 mi/ano
Demanda real: 13 mil pacientes/ano (8x mais)
Prazo total: até 10 anos para produção completa do IFA no Brasil
Indicações atuais no SUS: melanoma metastático
Indicações em avaliação (Conitec): câncer de colo do útero, esôfago, mama triplo-negativo e pulmão
Meta nacional: nacionalizar 70% dos insumos de saúde do SUS em 10 anos

Rodrigo Cruz, diretor de relações governamentais da MSD Brasil, descreveu o processo com a paciência de quem já fez isso antes: "No começo, é que eles aprendam como se faz a rotulagem, o envase, para depois passar para formulação e aí sim chegar à etapa final que é a produção do medicamento em si." Traduzindo: nos primeiros anos, o Butantan basicamente vai colar o rótulo. A independência real vem só lá na frente.

A conta que não fecha

O elefante na sala é o tempo. Dez anos é uma eternidade para quem tem câncer hoje. Os 11.300 pacientes que precisam do pembrolizumabe e não conseguem acesso pelo SUS não têm uma década para esperar. Muitos não têm um ano.

E mesmo com a produção nacional, a redução de custo não será mágica. O IFA do pembrolizumabe é um anticorpo monoclonal — uma molécula biológica complexa que exige biorreatores, controle de qualidade extremo e expertise que o Brasil ainda está construindo. Os biossimilares de anticorpos monoclonais no mercado internacional costumam custar 20-30% menos que o original. Significativo, mas não transformador.

O que realmente muda é a segurança de abastecimento e a escala. Com produção local, o SUS deixa de depender de uma única empresa estrangeira. E com custo menor, mesmo que moderadamente, é possível ampliar o acesso. Fernanda De Negri, secretária de Ciência e Tecnologia em Saúde, foi direta: "Deixa o paciente brasileiro com mais garantias de que esse medicamento não vai faltar."

O Butantan como fábrica do SUS

O Instituto Butantan não é novato em produção de biológicos. É o maior produtor de vacinas e soros da América Latina — responsável por 65% das vacinas do Programa Nacional de Imunizações. Produz a vacina da gripe, da hepatite B, da raiva, antissoros contra picadas de cobra e escorpião. Mas anticorpos monoclonais são outro campeonato. A complexidade de produção é ordens de magnitude maior.

O ministro Alexandre Padilha, que participou do evento remotamente, enquadrou o acordo na visão maior: "O SUS não é apenas o maior sistema público universal do mundo, mas também um dos maiores mercados estruturados do planeta." É uma frase que diz muito sobre a estratégia — usar o poder de compra do SUS como moeda de troca para trazer tecnologia ao país.

A estratégia faz sentido econômico. O Brasil importa 90% dos insumos farmacêuticos que consome. Cada crise global de logística — pandemia, guerra, bloqueio de canal — expõe a fragilidade dessa dependência. Produzir localmente não é apenas mais barato a longo prazo: é questão de soberania sanitária.

O que isso significa para quem tem câncer hoje

Na prática, para quem precisa do pembrolizumabe agora, a parceria não muda nada imediatamente. O medicamento continua disponível no SUS apenas para melanoma metastático, com os mesmos critérios de acesso. As novas indicações (colo do útero, pulmão, esôfago, mama) dependem de avaliação da Conitec — um processo que costuma levar de 1 a 3 anos.

Para quem tem plano de saúde, o pembrolizumabe pode ser solicitado judicialmente quando prescrito por oncologista, mas é uma via crucis burocrática que nem todo paciente tem energia — ou advogado — para enfrentar.

O acordo Butantan-MSD é uma aposta no futuro. Uma aposta necessária, tardia e bem-vinda. Mas para os 11.300 pacientes que precisam do medicamento hoje e não têm acesso, o futuro é um consolo magro. O câncer não espera dez anos. A burocracia, infelizmente, sim.

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