Câncer de colo do útero: o câncer que não deveria mais existir
É o câncer que mais mata mulheres até os 35 anos no Brasil — e é quase 100% prevenível com vacina e um exame que custa R$ 0 no SUS. Então por que 17 mil brasileiras são diagnosticadas todo ano?
Existe uma categoria de tragédia que é mais difícil de engolir que as outras: a tragédia evitável. Um avião que cai por manutenção negligenciada. Uma ponte que desaba por corrupção na obra. Uma doença que mata milhares de pessoas por ano apesar de termos vacina, exame de rastreamento e tratamento eficaz para lesões precursoras. O câncer de colo do útero pertence a essa categoria.
A cada ano, 17 mil brasileiras recebem o diagnóstico. Cerca de 7 mil morrem. A maioria é jovem — o pico de incidência está entre 25 e 35 anos. São mulheres que estão construindo carreira, criando filhos, planejando o futuro. E morrendo de um câncer que, com as ferramentas que temos hoje, simplesmente não deveria existir.
O dr. Drauzio Varella dedicou sua publicação mais recente ao tema, e o título resume a frustração: "Como prevenir o câncer de colo do útero?" A pergunta é quase retórica. Nós sabemos como. A questão é por que não estamos fazendo.
O vírus por trás de quase todos os casos
O câncer de colo do útero tem um autor: o HPV (Papilomavírus Humano). Não um coautor, não um fator de risco entre vários — o autor. Virtualmente 100% dos casos de câncer cervical são causados por infecção persistente por HPV, especialmente os subtipos 16 e 18, responsáveis por cerca de 70% dos casos.
O HPV é o vírus sexualmente transmissível mais comum do mundo. Estima-se que 80% das pessoas sexualmente ativas serão infectadas pelo menos uma vez na vida. Na enorme maioria dos casos, o sistema imunológico elimina o vírus sozinho em 1 a 2 anos, sem que a pessoa sequer saiba que foi infectada.
O problema surge quando a infecção persiste. Em uma minoria dos casos — mas uma minoria numericamente significativa —, o HPV se integra ao DNA das células do colo uterino e começa a causar alterações. Primeiro displasia leve, depois moderada, depois severa, e finalmente câncer invasivo. O processo inteiro leva, em média, 10 a 20 anos. É uma janela enorme para intervir. E mesmo assim, 7 mil mulheres morrem todo ano.
As três linhas de defesa que o Brasil tem (e subutiliza)
Linha 1: Vacina contra HPV. Disponível gratuitamente no SUS desde 2014 para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos. A vacina quadrivalente (Gardasil) protege contra os subtipos 6, 11, 16 e 18 — prevenindo até 70% dos cânceres cervicais e 90% das verrugas genitais. A eficácia é superior a 95% quando administrada antes do início da vida sexual.
A meta do Ministério da Saúde é vacinar 80% da população-alvo. A cobertura real em 2025 foi de 57% para meninas e 38% para meninos. Menos da metade dos meninos adolescentes está vacinado. A razão? Um coquetel tóxico de desinformação antivacina, tabu sobre sexualidade adolescente e logística deficiente nos postos de saúde.
• Custo da vacina (2 doses): R$ 0 no SUS
• Cobertura vacinal em meninas: 57% (meta: 80%)
• Cobertura vacinal em meninos: 38%
• Custo de um tratamento de câncer cervical: R$ 50.000 - R$ 200.000
• Mortes anuais: ~7.000
• Casos evitáveis com vacinação + rastreamento: ~90%
Linha 2: Papanicolau. O exame preventivo mais importante da ginecologia. Uma coleta simples de células do colo uterino que detecta alterações pré-cancerosas anos antes de se tornarem câncer. Disponível gratuitamente no SUS. Recomendação: a cada 3 anos para mulheres de 25 a 64 anos.
Mesmo assim, 40% das brasileiras nessa faixa etária nunca fizeram ou estão com o exame atrasado. As barreiras são conhecidas: vergonha, medo, dificuldade de agendamento, falta de ginecologista no município. Em cidades do interior do Norte e Nordeste, há localidades onde não existe um ginecologista sequer.
Linha 3: Tratamento de lesões precursoras. Quando o Papanicolau detecta uma lesão pré-cancerosa, ela pode ser tratada com procedimentos ambulatoriais simples — conização, cauterização, crioterapia — com taxa de cura superior a 95%. Sem quimioterapia, sem radioterapia, sem cirurgia radical. O câncer é prevenido antes de existir.
O que precisa mudar
A Austrália está a caminho de eliminar o câncer de colo do útero até 2035 — será o primeiro país do mundo a fazê-lo. Como? Vacina HPV para todos os adolescentes desde 2007, rastreamento organizado com teste de HPV (mais sensível que Papanicolau) e tratamento universal de lesões. A incidência já caiu 75% em mulheres jovens australianas.
O Brasil tem todas as ferramentas. A vacina está no SUS. O Papanicolau está no SUS. O tratamento de lesões está no SUS. O que falta é vontade política para organizar um programa de rastreamento que funcione — com busca ativa, agendamento facilitado e autoteste de HPV (já aprovado em outros países e em estudo pela Anvisa).
Enquanto isso, a cada duas horas, uma brasileira morre de um câncer que tem vacina, tem exame preventivo gratuito e tem tratamento curativo quando detectado cedo. Não é falta de ciência. Não é falta de tecnologia. É falta de algo muito mais simples: organização.