Março Azul: exames para câncer de intestino triplicam no SUS — mas ainda não é suficiente

Março Azul: exames para câncer de intestino triplicam no SUS — mas ainda não é suficiente

O câncer colorretal é o terceiro mais comum no Brasil e o que mais cresce entre jovens. A campanha Março Azul conseguiu triplicar os exames de rastreamento no SUS, mas a cobertura ainda está longe do ideal.

SaúdeCidade ·

Se o câncer de mama tem o Outubro Rosa e o câncer de próstata tem o Novembro Azul, o câncer de intestino — oficialmente chamado de colorretal — ficou com o Março Azul. É o menos famoso dos três, o que é irônico: o câncer colorretal é o terceiro mais incidente no Brasil (45 mil novos casos por ano) e o segundo que mais mata, atrás apenas do pulmão. Em 2026, as mortes por câncer colorretal devem ultrapassar as de câncer de mama pela primeira vez na história.

A Agência Brasil reportou nesta segunda-feira que os exames de rastreamento para câncer de intestino triplicaram no SUS durante o Março Azul — impulsionados pela campanha e pela recente recomendação do Ministério da Saúde de incluir o teste de sangue oculto nas fezes no check-up de rotina para maiores de 45 anos. É uma boa notícia. A má notícia é que triplicar a partir de quase nada ainda é pouco.

Um câncer que não deveria matar tanto

O câncer colorretal é quase completamente prevenível. Ele leva, em média, 10 a 15 anos para se desenvolver — começando como um pólipo benigno no intestino grosso que, com o tempo, pode virar câncer. Se você detecta e remove o pólipo antes da transformação maligna, o câncer simplesmente não acontece. A colonoscopia faz exatamente isso: encontra e remove pólipos na mesma sessão.

Detectado em estágio 1 (localizado), a taxa de sobrevida em 5 anos é de 90%. Em estágio 4 (metastático), cai para 14%. A diferença entre viver e morrer é, literalmente, um exame que leva 30 minutos e que o SUS oferece gratuitamente.

Câncer colorretal no Brasil — números:

45.630 novos casos estimados em 2026
20.245 mortes/ano
3° mais comum (homens e mulheres)
2° que mais mata
• Crescimento de 30% em menores de 50 anos na última década
• Taxa de rastreamento no Brasil: 15% (vs. 70% nos EUA e Europa)

Quem deve fazer rastreamento

A recomendação atual é começar o rastreamento aos 45 anos para a população geral (antes era 50 — a idade foi reduzida em 2024 pelo aumento de casos em jovens). Há duas opções:

  • Pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSOF): exame simples, feito em casa com kit do laboratório. Se positivo, faz colonoscopia. Frequência: anual.
  • Colonoscopia: exame direto do intestino com câmera. Detecta e remove pólipos na mesma sessão. Se normal, repete em 10 anos. É o padrão-ouro.

Deve começar antes dos 45 se: histórico familiar de câncer colorretal em parente de 1° grau (pais, irmãos), histórico pessoal de pólipos, doença inflamatória intestinal (Crohn, colite ulcerativa) ou síndromes genéticas (Lynch, polipose familiar).

A colonoscopia que todo mundo tem medo

O maior obstáculo ao rastreamento não é o custo (é gratuito no SUS) nem o acesso (a maioria das capitais tem serviço disponível). É o medo. A colonoscopia carrega um estigma que a mamografia não carrega — provavelmente porque envolve uma região do corpo que ninguém quer discutir em público.

A realidade é menos dramática do que o imaginário: o exame é feito sob sedação (você dorme e não sente nada). Dura 20-40 minutos. O preparo (limpeza intestinal com laxante no dia anterior) é a parte mais desagradável — mas é um desconforto de algumas horas que pode poupar anos de quimioterapia.

Um paciente resumiu bem: "O preparo é chato. O exame é nada. Saber que não tenho câncer? Não tem preço."

O que você pode fazer hoje

Se tem mais de 45 anos e nunca fez rastreamento: vá à UBS e peça a pesquisa de sangue oculto nas fezes. É gratuito, não invasivo e pode salvar sua vida. Se o resultado for positivo, a colonoscopia será agendada pelo SUS.

Se tem menos de 45 mas tem histórico familiar: converse com seu médico sobre antecipação do rastreamento.

O Março Azul conseguiu triplicar os exames. Mas triplicar 15% dá 45% — ainda longe dos 70% dos países desenvolvidos. Cada brasileiro que faz o exame é um câncer potencialmente evitado. E cada câncer evitado é uma família que não precisa lidar com quimioterapia, cirurgia e luto. O exame leva 30 minutos. O câncer leva anos. Escolha a opção de 30 minutos.

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