O câncer que mata mais que próstata e mama juntos — e o Brasil vai tentar diagnosticar cedo
O INCA lançou estudo para viabilizar um programa de rastreamento de câncer de pulmão no SUS usando tomografia de baixa dose. São 397 pacientes, dois anos de seguimento e uma chance de mudar o diagnóstico de 90% de casos avançados para algo que ainda pode ser curado.
Em 2024, o câncer de pulmão matou 32.465 brasileiros. Anote esse número e compare: câncer de próstata matou 17.826. Câncer de mama matou 20.849. Somados, os dois tipos que dominam a conversa pública sobre oncologia no Brasil não chegam ao que o câncer de pulmão faz sozinho. E ainda assim, quando você pensa em prevenção de câncer, provavelmente pensa em mamografia, PSA ou colonoscopia. Raramente em tomografia de tórax.
O INCA — Instituto Nacional de Câncer — acaba de dar um passo para mudar isso. Foi lançado um estudo de dois anos com no mínimo 397 pacientes para avaliar a viabilidade de um programa nacional de rastreamento de câncer de pulmão no SUS, usando tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD). Se o estudo der certo, o Brasil poderá ter, pela primeira vez, um protocolo público de detecção precoce para o câncer que mais mata.
Por que 5,2% de sobrevida em 5 anos
O câncer de pulmão é letal não porque seja biologicamente mais agressivo que outros — é porque é silencioso. Não dói, não aparece no espelho, não dá sinais nas fases em que ainda pode ser curado. Quando aparece algum sintoma — tosse persistente, falta de ar, dor no peito — o tumor geralmente já evoluiu para um estágio avançado.
Resultado: 84% dos casos no Brasil são diagnosticados quando o câncer já se espalhou. A taxa de sobrevida em cinco anos é de aproximadamente 5,2% — uma das mais baixas entre todos os tipos de câncer. Para comparação, o câncer de mama tem sobrevida em cinco anos de cerca de 87%. A diferença não está na biologia. Está no diagnóstico precoce.
O que a tomografia de baixa dose pode fazer
Estudos internacionais — especialmente o National Lung Screening Trial, conduzido nos EUA — já demonstraram o que a TCBD consegue fazer: reduzir a mortalidade por câncer de pulmão em 20% entre fumantes e ex-fumantes de alto risco. Quando combinada com cessação do tabagismo, a redução chega a 38%.
O potencial mais impactante é mudar o estágio do diagnóstico. Hoje, 84% dos casos chegam em fase avançada. Com rastreamento sistemático, estudos estimam que esse número pode cair para 30%. Traduzindo: a maioria dos cânceres seria encontrada quando ainda é localizado, operável, tratável. Quando ainda existe chance real de cura.
O epidemiologista Arn Migowski, que lidera o estudo no INCA, resumiu o objetivo com clareza cirúrgica: "A gente vai tentar detectar cedo, antes de ter sintomas, um câncer de pulmão." É o tipo de frase que parece simples mas carrega décadas de pesquisa que o Brasil ainda não traduziu em política pública.
• 32.465 mortes em 2024 — mais que próstata (17.826) e mama (20.849) somados
• Estimativa 2026–2028: ~781 mil novos casos por ano (todos os tipos)
• 84% dos casos diagnosticados em estágio avançado
• Taxa de sobrevida em 5 anos: ~5,2%
• TCBD reduz mortalidade em 20% (38% combinada com cessação do tabagismo)
• 85% dos casos associados ao tabagismo
• Tabagismo voltou a crescer no Brasil pela primeira vez em 15 anos — impulsionado pelo vape
Quem vai participar do estudo
O recrutamento será feito pelo Programa de Cessação de Tabagismo da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, que tem cerca de 50 mil participantes. O perfil do participante elegível: entre 50 e 80 anos, fumante ativo ou ex-fumante que parou há menos de 15 anos, com histórico de pelo menos 20 cigarros por dia durante 20 anos. É o grupo com maior risco comprovado de desenvolver câncer de pulmão.
Quem tiver resultado positivo no rastreamento será encaminhado para o Hospital do Câncer I — unidade de referência do INCA no Rio. O financiamento vem da AstraZeneca, parceria que levantou o debate sobre modelos público-privados em pesquisa clínica. Danilo Lopes, diretor médico da empresa, foi cuidadoso ao contextualizar: "Parcerias público-privadas podem ocupar diversos espaços, inclusive [a pesquisa]." O que é verdade — e exige vigilância sobre quem define o que se investiga e como se publica.
O vape e o problema que está chegando
Há um dado que merece destaque especial, quase um alerta de spoiler para o futuro do oncologista brasileiro: depois de 15 anos em queda, o tabagismo voltou a crescer no Brasil. O culpado é o cigarro eletrônico — o vape — que conquistou especialmente a faixa entre 18 e 24 anos.
Gustavo Prado, presidente da Aliança Brasileira de Combate ao Câncer de Pulmão, não disfarça a preocupação: "Mais pessoas estão fumando hoje, especialmente os mais jovens de 18 a 24 anos." O câncer de pulmão tem latência longa — pode levar décadas entre o início do tabagismo e o desenvolvimento do tumor. Isso significa que os jovens que começaram a vapear nos últimos cinco anos serão o problema oncológico dos anos 2040 e 2050. O rastreamento que o INCA está tentando implementar hoje vai precisar existir — e ser muito maior — quando essa conta chegar.
Por que o Brasil ainda não tem esse programa
O rastreamento de câncer de pulmão existe em países como EUA, Reino Unido e vários da Europa. No Brasil, a ausência de um programa nacional não é falta de evidência científica — é falta de evidência adaptada à realidade brasileira. Os estudos internacionais foram feitos em populações com acesso universal a tomógrafo de última geração, com sistemas de seguimento sofisticados. O SUS tem outra realidade.
É exatamente esse gap que o estudo do INCA quer preencher: demonstrar que é possível fazer rastreamento de qualidade dentro da infraestrutura pública brasileira. Se funcionar, o próximo passo é criar uma diretriz nacional. Se a diretriz virar política pública, o próximo passo é implementar. É um caminho longo — e começa com 397 pessoas e uma tomografia.
32.465 mortes em um ano. Taxa de sobrevida de 5,2%. 84% dos casos diagnosticados quando é tarde demais. O Brasil tem um câncer que é quase uma sentença de morte — e que poderia não ser, se o diagnóstico viesse cedo. O estudo do INCA não é a solução. É o começo da evidência que pode, eventualmente, levar a ela.
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