SUS faz 230 mil procedimentos em um fim de semana — e mostra o que funciona quando há vontade

SUS faz 230 mil procedimentos em um fim de semana — e mostra o que funciona quando há vontade

O mutirão "Dia E" mobilizou mil hospitais e centros de saúde em todo o Brasil. Consultas, exames, cirurgias e vacinas que normalmente levariam meses foram realizados em 48 horas.

SaúdeCidade ·

Tem dias em que o SUS parece um sistema à beira do colapso — filas intermináveis, falta de médicos, equipamentos quebrados, meses de espera para um exame simples. E tem dias em que o SUS mostra do que é capaz quando alguém resolve apertar o botão certo. Este fim de semana foi um desses dias.

O mutirão nacional "Dia E", coordenado pelo Ministério da Saúde em parceria com a Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), mobilizou aproximadamente mil hospitais e centros de saúde públicos e privados em todos os estados brasileiros. Em 48 horas, foram realizados 230 mil procedimentos — entre consultas especializadas, exames de imagem, cirurgias eletivas, vacinação e rastreamento de câncer.

Duzentos e trinta mil. Em dois dias. Para colocar em perspectiva: isso equivale ao que muitos hospitais de médio porte levam seis meses para fazer.

O que foi feito (e para quem)

O foco do mutirão foi a saúde da mulher — não por acaso, já que março é o mês em que se concentram campanhas de prevenção ao câncer de colo de útero e de mama. Mas o "Dia E" foi além e abriu vagas para toda a população.

Mutirão "Dia E" em números:

230 mil procedimentos em 48h
~1.000 hospitais e centros de saúde envolvidos
42 mil pacientes atendidos só pela rede Ebserh
Todos os estados brasileiros participaram

Tipos de procedimentos:
• Mamografias e ultrassonografias
• Papanicolau
• Consultas com especialistas (cardiologia, endocrinologia, ortopedia)
• Cirurgias eletivas (catarata, hérnia, vesícula)
• Vacinação em atraso
• Exames laboratoriais e de imagem

Para pacientes que esperavam meses por uma consulta, o mutirão foi como um oásis no deserto. Dona Maria das Graças, 67 anos, de Recife, aguardava desde outubro de 2025 por uma mamografia. Conseguiu no sábado de manhã, às 8h, sem fila. "Eu ia fazer em maio, se desse sorte. Quando soube do mutirão, vim correndo", contou à Agência Brasil.

Por que funciona no mutirão e não funciona no dia a dia

A pergunta incômoda é inevitável: se o SUS consegue fazer 230 mil procedimentos em um fim de semana, por que não consegue reduzir as filas no funcionamento regular?

A resposta tem várias camadas. Primeiro, o mutirão opera em regime de exceção: profissionais trabalham em horários estendidos (sábado e domingo), equipamentos são usados em capacidade máxima e a burocracia é simplificada. No dia a dia, os mesmos hospitais operam com equipes reduzidas aos fins de semana, equipamentos ficam ociosos fora do horário comercial e cada agendamento passa por camadas de regulação.

Segundo, há um déficit estrutural real. O Brasil tem 2,3 médicos por mil habitantes — abaixo da média da OCDE (3,7). Em regiões do Norte e Nordeste, a proporção cai para menos de 1,5. Mutirões não criam médicos — redistribuem temporariamente os que existem.

Terceiro — e este é o ponto politicamente sensível —, o SUS é subfinanciado. O Brasil gasta cerca de 4% do PIB em saúde pública, contra 6-8% na maioria dos países com sistema universal. Com R$ 220 bilhões para atender 150 milhões de pessoas que dependem exclusivamente do SUS, a conta simplesmente não fecha.

O modelo pode ser permanente?

Mutirões não são solução de longo prazo — são curativos. Ninguém sustenta uma operação de guerra permanentemente. Mas o "Dia E" demonstra algo valioso: a infraestrutura existe. Os profissionais existem. Os equipamentos existem. O que falta é um modelo de gestão que maximize a utilização do que já temos.

Hospitais que funcionam 8 horas por dia, 5 dias por semana, poderiam funcionar 12 horas por dia, 6 dias por semana — com turnos adicionais e remuneração proporcional. Centros de imagem com equipamentos ociosos à noite e nos fins de semana poderiam abrir vagas extras. O agendamento direto pelo aplicativo do SUS (ConecteSUS), sem passar por UBS intermediária, reduziria semanas de espera.

Nenhuma dessas ideias é nova. Todas já foram propostas, debatidas e engavetadas. O mérito do "Dia E" é provar, com 230 mil procedimentos em 48 horas, que o SUS tem mais capacidade do que usa. A questão não é se o sistema consegue — ele provou que consegue. A questão é se alguém vai decidir que isso não deveria ser exceção. Deveria ser regra.

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