Semaglutida sem patente: 55% dos brasileiros querem o remédio no SUS
Com a exclusividade da Novo Nordisk extinta em março de 2026, pesquisa com 39.600 pessoas revela demanda reprimida enorme — e o SUS como principal expectativa de acesso
No dia 20 de março de 2026, o Supremo Tribunal Federal decidiu que a Novo Nordisk não teria mais exclusividade sobre a semaglutida no Brasil. Do ponto de vista farmacológico, foi uma decisão técnica sobre propriedade intelectual. Do ponto de vista da saúde pública, foi uma bomba de luz verde para dezenas de milhões de brasileiros que nunca puderam pagar R$ 800 a R$ 1.500 por mês para tratar uma doença crônica chamada obesidade.
Uma pesquisa da TIM Ads com 39.600 clientes — conduzida exatamente entre 19 e 24 de março, dias depois da decisão — captou o pulso de um país que estava esperando essa janela. Resultado: 55% dos entrevistados afirmaram que buscariam tratamento com semaglutida pelo SUS, caso estivesse disponível. Mais da metade. Num país onde o sistema público de saúde atende 150 milhões de pessoas.
Quem é essa maioria silenciosa
O perfil dos interessados na pesquisa diz muito sobre o tamanho do problema que a obesidade representa no Brasil. Sessenta e seis por cento dos entrevistados têm entre 18 e 35 anos — a faixa etária que cresceu com as redes sociais e que acompanhou, de perto e em tempo real, a revolução dos GLP-1 acontecer para quem podia pagar. Trinta e cinco por cento declaram estar insatisfeitos com seu peso atual. Sessenta e quatro por cento já tentaram alguma dieta ou tratamento para emagrecer.
É um retrato do Brasil que tenta, que quer, mas que encontra uma parede financeira consistente no caminho. O custo foi apontado como barreira por 14% dos entrevistados — mas o interessante é que outros obstáculos como medo de agulhas e ausência de orientação médica aparecem com proporção similar, o que sugere que, além do preço, existe também uma barreira de acesso à própria saúde preventiva.
• 55% buscariam semaglutida pelo SUS se disponível
• 38% considerariam usar injetáveis pagos (genéricos ou similares)
• 51% nunca usaram nenhuma "caneta" emagrecedora
• 22% são usuários atuais de GLP-1
• 35% estão insatisfeitos com o peso atual
• 64% já tentaram dieta ou tratamento de emagrecimento
• Perfil predominante: 66% têm 18-35 anos
O que "patente vencida" significa na prática
Quando uma patente vence, qualquer laboratório pode fabricar o mesmo princípio ativo sem pagar royalties ao detentor original. No caso da semaglutida, isso significa que empresas brasileiras como EMS, Eurofarma e outras — além de fabricantes indianos e chineses que já produzem versões genéricas — podem entrar no mercado com versões similares a custos muito menores.
A queda de preço não é imediata nem automática. Levou quase três anos para que o mercado de genéricos do sildenafila (Viagra) democratizasse o tratamento de disfunção erétil depois da queda da patente da Pfizer. Mas aconteceu. E a trajetória da semaglutida tende a ser parecida — especialmente porque o mercado potencial é incomparavelmente maior.
O problema é que "genérico disponível na farmácia" e "disponível no SUS" são duas coisas muito diferentes. Para incorporar um medicamento ao sistema público, a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias) precisa analisar custo-efetividade, segurança e impacto orçamentário. É um processo que leva meses ou anos — e que pode resultar em "não" mesmo para medicamentos eficazes, se o custo for considerado alto demais para o orçamento do Ministério da Saúde.
A obesidade ainda não é tratada como doença crônica no SUS
Aqui está o ponto que a pesquisa ilumina sem querer: 55% das pessoas esperam do SUS um acesso que o SUS ainda não tem condições de ofertar. O sistema público trata complicações da obesidade — diabetes, hipertensão, apneia, doença hepática gordurosa — mas raramente trata a obesidade em si, de forma sistemática e com medicamentos de eficácia comprovada.
É uma inversão de lógica cara. Tratar uma internação por síndrome metabólica custa dezenas de vezes mais do que tratar a obesidade que a causou. Mas o sistema está estruturado para pagar pela internação, não pela prevenção com medicação crônica.
Com a patente da semaglutida vencida, o país tem pela primeira vez a chance de mudar essa equação. Se os genéricos chegarem a um preço que a Conitec considere viável para o SUS — algo como R$ 150-200 por mês, metade do atual —, a incorporação deixaria de ser uma questão de quando e passaria a ser uma questão de vontade política.
Cinquenta e cinco por cento dos brasileiros já responderam o que querem. A pergunta agora é se o sistema vai ouvir.
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