A vacina que funciona, o câncer que persiste: o paradoxo do HPV na América Latina
Estudo na Lancet mostra que a vacinação contra HPV avança na região, mas as mortes por câncer de colo do útero continuam subindo. O Brasil vacina 83% das meninas — e ainda perde 7 mil mulheres por ano para um câncer evitável
Existe uma injustiça particular em morrer de uma doença que poderia ter sido prevenida com uma picada no braço aos 11 anos. É o tipo de tragédia que deveria indignar mais do que indigna — talvez porque aconteça devagar, silenciosamente, uma mulher de cada vez, em consultórios de oncologia e enfermarias de hospitais públicos, longe dos holofotes que costumam iluminar emergências de saúde pública.
O câncer de colo do útero mata 7 mil brasileiras por ano. Sete mil. É o equivalente a um avião caindo a cada três semanas, durante o ano inteiro, só com mulheres a bordo. E a esmagadora maioria dessas mortes — mais de 99% — é causada pelo papilomavírus humano, o HPV, um vírus para o qual existe vacina gratuita no SUS desde 2014.
Um estudo publicado na última semana na Lancet analisou dados de 35 países da América Latina e Caribe e encontrou exatamente o paradoxo que o título anuncia: a vacinação contra HPV está avançando em quase toda a região, com coberturas que vão de 45% a 97%. Mas as mortes por câncer cervical não estão caindo na mesma velocidade. Em alguns países, estão subindo.
Os números que não fecham
O Brasil vacinou, até 2025, 82,83% das meninas e 67,26% dos meninos de 9 a 14 anos com pelo menos uma dose da vacina contra HPV. São números que, a princípio, parecem bons. A OMS considera que uma cobertura acima de 80% entre meninas é suficiente para começar a reduzir a circulação do vírus na população.
Mas aqui está o problema: a vacina previne infecções futuras. Ela não trata infecções que já aconteceram. Uma menina vacinada hoje aos 11 anos estará protegida quando iniciar a vida sexual. Mas uma mulher de 35 anos que se infectou com HPV aos 18, antes da vacina existir, não é beneficiada pela campanha vacinal. Ela precisa de outra coisa: rastreamento — o exame preventivo, o velho Papanicolau, que detecta alterações celulares antes que virem câncer.
E é no rastreamento que o Brasil tropeça. A recomendação do Ministério da Saúde é que toda mulher entre 25 e 64 anos faça o exame preventivo a cada três anos. Dados do SISCAN (Sistema de Informação do Câncer) mostram que, em 2025, apenas 38% das mulheres nessa faixa etária estavam com o exame em dia. No Norte e Nordeste, a cobertura cai para 24% e 29%, respectivamente.
Dois mundos, uma doença
O câncer de colo do útero é uma doença de desigualdade. Em países com programas de rastreamento organizados — como Suécia, Austrália e Finlândia — a doença já é rara, com taxas de incidência abaixo de 5 por 100 mil mulheres. No Brasil, a taxa é de 15,4 por 100 mil. No Amazonas, chega a 32 por 100 mil — seis vezes mais que na Suécia.
A razão não é mistério. Em Manaus, o acesso ao Papanicolau depende de agendar consulta na UBS (espera média: 45 dias), ir ao local (frequentemente distante, em cidade com transporte público precário), fazer o exame, voltar semanas depois para buscar o resultado, e — se houver alteração — ser encaminhada para colposcopia (espera: 3 a 6 meses). Em Estocolmo, mulheres recebem pelo correio um kit de autocoleta de HPV, enviam de volta, e são notificadas por SMS em duas semanas.
Não é que as brasileiras não se cuidam. É que o sistema não foi desenhado para elas.
• A cobertura vacinal contra HPV subiu de 12% em 2014 para 68% em 2025 na América Latina
• Apesar disso, as mortes por câncer cervical caíram apenas 8% no período — e em 9 países, aumentaram
• O principal gargalo não é a vacina, mas o rastreamento: apenas 4 dos 35 países têm programas organizados de rastreamento com convocação ativa
• A autocoleta de HPV (método em que a mulher colhe a amostra sozinha) aumentou a adesão em 40% nos países que a adotaram
Rastreamento oportunístico: o nome bonito para a bagunça
No jargão da saúde pública, o Brasil tem um sistema de rastreamento "oportunístico" para câncer de colo do útero. Isso significa que o exame é oferecido quando a mulher aparece na unidade de saúde por qualquer motivo — e não que a mulher é ativamente convocada para fazê-lo. Na prática, quem faz o preventivo é quem já tem acesso ao sistema de saúde, quem já tem o hábito de ir ao ginecologista, quem já tem informação. Quem mais precisa — mulheres pobres, com baixa escolaridade, moradoras de áreas rurais ou periferias — é justamente quem menos faz.
O resultado é perverso: mulheres que já têm baixo risco (vacinadas, com acesso a saúde, que fazem preventivo regularmente) são rastreadas em excesso, enquanto mulheres de alto risco (não vacinadas, sem acesso, sem exame há anos) são invisíveis ao sistema. É como colocar detectores de incêndio só nos prédios que já têm sprinklers.
A autocoleta de HPV — em que a mulher recebe um kit simples, colhe a própria amostra vaginal em casa e devolve para análise — é considerada a solução mais promissora para esse problema. Ensaios clínicos na Argentina, Colômbia e no próprio Brasil mostraram que a adesão ao rastreamento aumenta entre 30% e 50% quando a autocoleta é oferecida. Mulheres que nunca haviam feito exame preventivo aceitaram a autocoleta com naturalidade — eliminando barreiras como vergonha, distância e tempo.
A meta da OMS e o relógio correndo
Em 2020, a OMS lançou a Estratégia Global para Eliminar o Câncer de Colo do Útero como problema de saúde pública, com metas para 2030: 90% de meninas vacinadas contra HPV até os 15 anos, 70% de mulheres rastreadas com teste de alta performance até os 35 anos (e novamente até os 45), e 90% de mulheres com lesões pré-cancerosas ou câncer invasivo tratadas.
O Brasil está no caminho para atingir a meta de vacinação — faltam cerca de 7 pontos percentuais. Para a meta de rastreamento, estamos a anos-luz: 38% contra os 70% necessários. E para a meta de tratamento, os dados são tão fragmentados que nem é possível calcular com precisão.
O estudo da Lancet é categórico: sem investimento maciço em rastreamento, a vacinação sozinha não vai eliminar o câncer cervical na América Latina antes de 2070. A vacina protege as futuras gerações; o rastreamento salva as mulheres de agora. As duas estratégias precisam caminhar juntas.
Sete mil mulheres por ano
É tentador tratar esses números como abstrações — porcentagens, taxas, projeções. Mas cada ponto percentual de cobertura vacinal que falta representa meninas que serão infectadas. Cada ponto de rastreamento que falta representa mulheres cujo câncer será descoberto tarde demais. E cada uma das 7 mil mortes anuais representa alguém que tinha nome, família, planos para o fim de semana.
O câncer de colo do útero é, tecnicamente, um dos cânceres mais fáceis de prevenir e curar — quando detectado a tempo. A vacina existe. O teste existe. O tratamento existe. O que falta é a vontade de levar tudo isso até as mulheres que mais precisam. É pouco pedir. E é, no fim das contas, tudo o que separa 7 mil mortes por ano de zero.
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